“Gandas loucos”

Encontrei o António na rua. Não o via há algum tempo. “Passei umas feriazinhas no Hospital. Coisas dos nervos, como de costume. Você sabe, ó dótor.” Eu sabia. Teve alta. “Já estava melhor. E os médicos disseram-me que agora não há dinheiro para internamentos. Que eu tomasse os remédios e fosse à vida. E então cá estou!” E estava, como sempre.

“Oiça lá, ó dótor. Cheguei cá fora e parece que estou pior! Então sou eu o louco? Mal pus os pés na rua e fiquei a saber que o Metro foi à vida. Então e agora o que vão fazer? Coimbra fica assim? Picadas abertas e sem carris a caminho da Lousã? Dótor , aquilo dá é para fazer corta-mato ou ralis!” E ria-se. “E eu é que sou doido!” Calou-se subitamente, percebi que tomava fôlego e não ia terminar tão depressa.

”Você viu aquela nomeação de uma gaja de 26 anos, uma Mafalda, para jurista do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais a ganhar mais de cinco mil euros, uma sobrinha de um maioral. Está lá pela cunha ou por ser boazona como vem aqui no jornal?” e mostrava a fotografia. “As juristas que trabalham consigo também ganham assim?” – e piscava-me o olho. “Não que você é um tanso e não pertence lá a esses tipos! A gaja vai ganhar mais que o director-geral. Qual crise, qual carapuça. Mas olhe que a gaja merece. Veja!”E eu vi. “O Doido sou eu?”

Procurava pôr fim à conversa. Não que fosse desinteressante ouvir verdades pela boca do tolo. Mas estava atrasado.

O António intuindo a minha pressa, segurava a manga do meu casaco. “Espere lá, dótor. Vai ouvir mais. Doidos são esses gajos que andam para aí. Eu posso não bater bem. Mas eles… Você já viu aquele programa da TVI, um que se chama

“Agora é que conta” da Fátima Lopes?” Eu não vira. “Ah! mas tem de ver. Cultura não é só ler livros, ó dôtor. Tem de ver. Que cena! O programa começa com o pessoal a abanar contas por pagar, a conta da luz, do gás, da renda de casa. E a Dona Fátima manda o pessoal fazer macacadas, deitam-se em espuma, rebolam no chão, eu sei lá, e a Dona Fátima em troca paga-lhes as contas. Uma cena! Um fulano faz de tolo e a tipa paga as contas. Assim é que devia ser.”

E sussurrou, quase em segredo: “As pessoas iam para a porta da Câmara, atiravam-se ao chão, faziam malabarismo, despiam-se, mordiam em cães vadios, eu sei lá, ó dótor, e vocês davam-lhes casitas, pagavam-lhes as rendas, a prestação do carrito. Diga lá isso ao Presidente. Têm é de contratar a Dona Fátima ou então a menina Mafalda, a das Finanças, isso é que era ver homens a abanar as contas. Caramba, vossemecês, têm de ser modernos como a TVI. Aprendam! Ó catano, o doido sou eu!”

Largou-me o braço e desatou a correr pela rua fora. A cada duas ou três passadas, virava-se. Já distante, gritou: “Não se esqueça da Dona Fátima a andar de Metro com a menina Mafalda. Ca gandas loucos!”

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