Recriar ritual da “barrela”

Nem só de tricanas e de estudantes vive a memória iconográfica de Coimbra. As lavadeiras do Mondego são personagens fundamentais dum passado não muito distante.

Ainda longe, são as alvas e volumosas trouxas de roupa que sobressaem da fila que percorre, ordenada, a ponte improvisada sobre as águas rápidas do Mondego. Anunciada, a recriação do ritual da “barrela” começa com o cortejo animado das mulheres do Rancho Folclórico Rosas do Mondego a improvisarem os passos que, algumas, nunca esqueceram e quase todas recordam com “muitas saudades”.

Aos Palheiros, numa volta do rio junto à praia fluvial, já o rancho de mulheres se apressa nos passos ainda não esquecidos da “barrela” que, não há assim tantas décadas, se assumia como uma das poucas tarefas remuneradas para as mulheres das margens do rio, substituídas depois pelas fábricas e agora pelo desemprego.

Sob o sol escaldante de um fim de tarde que mais parece pico da manhã, o apelo da água, irresistível, acontece. Mergulhadas as peças de roupa na corrente mais mansa da margem, já se prepara a “barrela”: numa estrutura de madeira, empilham-se as camadas feitas de lençóis, camisas, atoalhados e coisas miúdas, depois seladas com uma grossa camada de cinza.

Então, de uma grande panela de ferro, retiram-se caçoilos de água fervente a que se junta sabão azul. Objectivo, “rematar” a operação que leva a noite inteira e será retomada, como outrora era, na manhã seguinte, assim o sol (ou a chuva) permitisse a “cora” que melhor alvura devolvesse à roupa.

Mergulhada de novo na água corrente do Mondego, era depois na areia que se espalhava a secar a brancura da trouxa que havia de ser devolvida, imaculada e a cheirar a ar puro, às senhoras da cidade.

A atestar o “genuíno” da recriação, as tendas improvisadas na areia, agora cobertas de panos coloridos, então de ramos verdes de salgueiro, haviam de acomodar, durante a noite, o rancho de mulheres e dos filhos que as acompanhavam, sempre, depois da escola.

Mas, antes ainda, agora como antigamente, o jantar típico da “barrela”: a acompanhar o bacalhau assado na brasa, as sopas ferventes, feitas num caçoilo de barro, com broa de milho a que se junta um caldo de feijão com couve, tudo regado com um fio de azeite e posto ao lume, a apurar.

A todos os que, sábado, assistiram à recriação organizada pela Associação Desportiva e Recreativa de Casal da Misarela, Vale-de-Canas, Barca e Ribeira, com o Rancho Folclórico Rosas do Mondego, foi Maia Augusta Rodrigues – 64 anos dinâmicos, 30 dos quais passados como lavadeira no Mondego –, quem serviu de guia e “intérprete”. Ou não tivesse ela passado metade da sua vida a lavar a roupa toda do Colégio Progresso, à Rua dos Coutinhos, e até a do Hotel Astória, quando as “máquinas” não davam conta do recado.

Já Hermínia Reis não foi lavadeira. Mas é filha e irmã de lavadeiras. Por isso, recordou com uma saudade toda especial os dias e as noites no areal, numa meninice toda passada junto ao rio. No seu caso, um pouco acima da Barca dos Palheiros, onde aconteceu a recriação, mais exactamente no Bico da Areia, Casal da Misarela.

Que o rio, naquele tempo, estava juncado de sítios para as “barrelas”, cada lugar com o seu e cada lavadeira com um quinhão de água e areal.

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