Arte Xávega reclama melhores condições

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Há mais de duas décadas que a força dos bois foi substituída pelos cavalos dos tractores. A mecanização da arte xávega chegou primeiro à Costa de Lavos, há mais de 30 anos.

Depois, foi a vez da Praia da Leirosa se render à tecnologia sobre rodas. Entretanto, as leis dos direitos dos consumidores e da saúde pública foram apertando as redes, reduzindo drasticamente a actividade desta ancestral arte de pescar.

Presentemente, em Portugal, são poucas as praias onde se pratica a arte xávega como actividade económica. Para turista ver, porém, sobretudo na época balnear, várias colectividades e instituições organizam sessões, um pouco por toda a região. Mas é na Praia de Mira onde se encontram as melhores e maiores infra-estruturas de apoio à actividade económica.

Na Praia da Leirosa, Armando Caiano, 61 anos, é rei. Reina num reino solitário e com vontade de o trocar, não por um cavalo, mas pelo preço justo dos tractores, das embarcações e do restante material. “Este ano está a ser miserável. Não há peixe nem dinheiro para o comprar. Vendo-o mais barato do que quando comecei nesta arte”, queixa-se o armador. Se os próximos continuarem como este, deverá abandonar a actividade, que exerce há 25 anos. “Se tivesse quem me comprasse isto, vendia já!”, afirma, convicto e desiludido.

Naquela praia, da freguesia de Marinha das Ondas, as condições de trabalho não são as melhores. Aliás, pior é difícil. Um posto de venda de madeira, com cobertura mas sem condições para o armazenamento temporário do pescado, foi plantado no areal. “Não me deixam (as entidades com jurisdição sobre a praia) construir infra-estruturas em condições e um armazém para guardar os tractores e as artes de pesca”, lamenta Armando Caiano.

“Receio que a arte xávega tenha os dias contados, na Figueira, se o negócio continuar assim e não forem melhoradas as condições de trabalho”, alerta o homem do mar. Na Costa de Lavos também só há um armador e as infra-estruturas estão longe de serem as ideais. Se os receios de Armando Caiano se concretizarem, a Figueira da Foz fica mais pobre.

O concelho fica, aliás, triplamente mais pobre: perde um sector económico, uma atracção turística e um legado histórico-cultural. Só com o armador da Leirosa trabalham 15 pessoas. Lançam as redes duas ou três vezes por dia, arrastando para a praia carapau, sardinha e cavala. Os robalotes e a lula também são apanhados nas malhas, mas em menores quantidades.

Metade das companhas de arte xávega – são oito – do litoral Centro encontram-se na Praia de Mira, envolvendo 150 famílias. Nos últimos anos, foram criadas condições para o exercício da actividade. Nomeadamente, um posto de venda explorado pela Docapesca, com todas as condições higieno-sanitárias, e quatro armazéns duplos para o material de pesca. O posto de vendagem tem ainda uma unidade de produção de gelo. Segundo adianta o vereador da Câmara de Mira Miguel Grego, a próxima fase do complexo vai contemplar uma zona de transformação, lavagem e acondicionamento do pescado em caixas.

A empreitada vai avançar ao abrigo do programa Promar, candidatura promovida pela parceria entre a autarquia de Mira e a Associação de Pescadores de Arte Xávega da Praia de Mira. Miguel Grego salienta a importância que a actividade representa para o concelho: “olhamos para este sector com uma dupla visão: a económica e a turística”.

One Comment

  1. Tiago Pereira says:

    e muito bom comer peixe fresco com tradição naõ acabem com a nossa historia….

    Tiago Pereira

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