
09-04-2008
Jot´ Alves
TURISMO - RTC insiste no geoparque
|
Cimpor receptiva a sair do Cabo Mondego
|
Cimenteira está disposta a cessar a exploração de cal no Cabo Mondego para dar lugar à candidatura de um geoparque à Unesco.
A candidatura de um geoparque no Cabo Mondego à Unesco (ver caixa) está mais perto de se tornar realidade. Tudo porque da reunião recentemente realizada entre responsáveis da Cimpor e o presidente da Região de Turismo do Centro (RTC), Pedro Machado, resultou uma abertura sem precedentes por parte da cimenteira, que admite abandonar a exploração de cal hidráulica, desde que sejam, porém, cumpridas determinadas condições.
Segundo Pedro Machado adiantou ao DIÁRIO AS BEIRAS, a administração da Cimpor exige que não haja despedimentos. Para que esta condição se cumpra, a base de negociação contempla ainda uma eventual necessidade de reintegração dos 45 trabalhadores no mercado de trabalho. Mas com a garantia de que as actuais regalias sociais devem ser respeitadas. Além das questões relacionadas com o quadro de pessoal, a empresa reivindica que os seus interesses sejam tidos em conta.
Pedro Machado não ouviu os seus interlocutores falarem sobre uma contrapartida que vinham defendendo nos últimos anos. Ou seja, o complexo turístico e imobiliário que a Cimpor pretendia ver aprovado pela câmara como condição para abandonar o Cabo Mondego. Porém, o presidente da Figueira, Duarte Silva, manteve que a empresa estava a pedir demais e não cedeu. Isto, ao mesmo tempo, que defendia o fim da exploração da pedreira.
Reunião decisiva
“A candidatura a geoparque só poderá avançar depois de haver garantias que a Cimpor sai do Cabo Mondego”, condiciona Pedro Machado. Contudo, a “total abertura” manifestada pela cimenteira para viabilizar o projecto da RTC dá um novo alento ao desiderato de incluir a Figueira na rota dos 55 geoparques do mundo. Contudo, neste momento tudo está pendente de uma reunião na secretaria de Estado do Ambiente.
Para já, há uma certeza: “existe disponibilidade da Cimpor e da RTC em desenvolver o processo”, garante Pedro Machado. Mas, ressalva, a questão dos postos de trabalho estará sempre patente, a montante e a jusante da candidatura. Lembre-se que o Cabo Mondego foi classificado como monumento natural em Outubro de 2007. Um objectivo que a Câmara da Figueira da Foz, investigadores e ambientalistas perseguiam há duas décadas. Parte significativa da área concessionada à Cimpor ficou de fora da classificação. Apesar das tentativas, não foi possível obter declarações de Duarte Silva.
Como poderá ser
Se a candidatura for apresentada – e aprovada – , parte do Cabo Mondego passará a ser utilizada para percursos turísticos. Poderão ali ainda ser instalados equipamentos de apoio – por exemplo, restaurantes, posto de venda de artesanato e de merchandising. Serão também criados postos de observação do património histórico e geológico do sítio, bem como centros de interpretação. A instalação de uma unidade hoteleira está fora de causa, pelo menos na circunscrição do hipotético futuro geoparque, garante Pedro Machado, presidente da Região de Turismo do Centro. Em todo mundo existem 55 geoparques, a maioria dos quais no continente asiático. Na Península Ibérica há cinco. Um deles encontra-se em Portugal – o Tejo Internacional, na zona de Castelo Branco. Cabe à Unesco, organismo das Nações Unidas que classifica sítios, zonas e peças arquitectónicas como património da humanidade. Se o Cabo Mondego vier a ter um parque geológico, a Figueira da Foz e a região, assim como o resto do país, passarão a fazer parte de um restrito roteiro turístico e científico internacional. Quem mais poderá ganhar com o geoparque é o sector do turismo, que terá ao seu dispor uma importante ferramenta para combater a sazonalidade e, por outro lado, diversificar a oferta na época balnear. Todavia, nada será possível se a Cimpor não abandonar a sua pedreira que mantém no local desde 1800 (ver texto principal). Nas últimas décadas, a empresa portuguesa tem-se dedicado a explorar e a transformar cal hidráulica. A unidade transformadora encontra-se junto ao mar, enquanto a pedreira progride nas entranhas da Serra da Boa Viagem. O Cabo Mondego tem um valor geológico internacionalmente reconhecido, sobretudo aquele que está relacionado com o período jurássico.
|
|