16 | JUL | 07
SEGUNDA-FEIRA

















   



HOSPITAIS
Guarda e Leiria não realizam abortos
 
O elevado número de médicos objectores de consciência vai inviabilizar a realização de abortos nos hospitais distritais da Guarda e Leiria, segundo fontes hospitalares e da ARS Centro.

No Hospital de Santo André, em Leiria, 18 dos 19 especialistas do serviço de obstetrícia invocaram a objecção de consciência, o que se traduz em falta de condições para aplicar a lei da interrupção voluntária da gravidez (IVG).
Para ultrapassar esse impedimento, o Hospital de Leiria estabeleceu protocolos de colaboração com as maternidades Bissaya Barreto e Daniel de Matos, em Coimbra, e o Hospital Distrital da Figueira da Foz, segundo fonte da ARS Centro.
Uma fonte do Hospital de Santo André, confirmou a existência de um “grande número de médicos objectores”, o que torna “difícil garantir” um mínimo de clínicos que assegure o serviço em continuidade.
No Hospital Sousa Martins, na Guarda, o número de objectores também inviabilizou a realização da IVG. Este hospital assinou protocolo com o Hospital de São Teotónio, em Viseu.
Oito dos dez médicos do serviço de obstetrícia e ginecologia do Hospital da Guarda declararam-se objectores de consciência face à nova lei, disse à Lusa o director clínico, Luís Ferreira. “Uma vez que 80 por cento dos médicos são objectores e dois não são suficientes para cumprir rigorosamente a lei em todos os dias do ano, era difícil assegurar o serviço”, sublinhou Luís Ferreira.
O Hospital de Viseu receberá as mulheres (grávidas até às dez semanas, que pretendam abortar) dos 14 concelhos do distrito da Guarda, incluindo as residentes em Seia, onde existe o Hospital Nossa Senhora da Assunção.
Em Coimbra, a Maternidade Daniel de Matos, que integra os Hospitais da Universidade (HUC), dispõe de uma equipa de nove médicos para assegurar consultas três dias por semana e executar a opção da mulher pelo aborto ao abrigo da lei. “Não temos uma noção exacta da pressão que vamos ter”, declarou à Lusa o director do serviço de obstetrícia dos HUC, Paulo Moura, indicando que a maternidade aceitou esta semana as primeiras marcações de consultas.
Ainda em Coimbra, a Maternidade Bissaya Barreto já realiza em média dois abortos por dia desde o início de Julho, revelou o Centro Hospitalar de Coimbra, que inclui aquele estabelecimento, invocando as “recomendações da lei” nesse sentido.
No distrito de Castelo Branco, os dois hospitais estão prontos para iniciar as consultas para IVG. Tanto no Hospital Amato Lusitano (HAL), como no Hospital Pêro da Covilhã, as consultas prévias vão ser feitas às segundas e quintas-feiras. “Objectivamente, não me foi apresentada nenhuma declaração de objecção de consciência ao serviço”, disse Sanches Pires, presidente do conselho de administração do HAL. Existem no Hospital Pêro da Covilhã, na Covilhã, dois obstetras em condições assegurar o serviço, referiu o presidente do conselho de administração, João Casteleiro.
No Hospital Infante D. Pedro, em Aveiro, 75 por cento dos médicos declararam-se objectores de consciência. Apesar disso, o hospital considera estar em condições de realizar a interrupção voluntária da gravidez às mulheres que o solicitarem, disse à Lusa uma fonte do gabinete de comunicação da instituição hospitalar.
Em Viseu, o hospital da capital de distrito garante estar “devidamente organizado, equipado e montado” para receber as grávidas que decidam fazer um aborto. “Garante-se assistência a todas as mulheres que aqui se deslocarem para fazer a IVG”, disse à Lusa Luís Viegas, do gabinete de Relações Públicas do Hospital de S. Teotónio.

Nove unidades sem médicos para fazer a IVG

Para além das unidades da Guarda e de Leiria, pelo menos mais sete hospitais públicos de todo o país vão ter de reencaminhar para outros as mulheres que queiram realizar abortos, devido ao elevado número de objectores de consciência. Segundo um levantamento realizado pela Lusa, na região autónoma dos Açores apenas um dos três hospitais terá médicos suficientes para realizar a intervenção, já que a totalidade dos 18 especialistas de Ponta Delgada e Angra do Heroísmo se recusam a realizar abortos por motivos de consciência. Na região Norte, três dos 14 hospitais não estão preparados para realizar IVG. Os hospitais Pedro Hispano (Matosinhos) e de Viana do Castelo só deverão estar prontos para dar resposta às solicitações de IVG mais tarde, quando solucionarem os problemas de falta de clínicos disponíveis, enquanto o Santo António (Porto) sofreu um atraso cuja razão não especificou. No Alentejo, o hospital de Évora vê-se impedido de realizar IVG depois de todos os obstetras terem invocado o estatuto de objector de consciência, uma situação que irá obrigar a unidade a encaminhar as mulheres do distrito para Beja e Portalegre. A Madeira é a única região do país onde a lei não será para já aplicada, não por falta de médicos disponíveis, mas por decisão do Governo regional, que suspendeu a aplicação do diploma enquanto sobre ele não se pronunciar o Tribunal Constitucional. Os hospitais de S. Francisco Xavier e Torres Vedras são as duas unidades da região de Lisboa e Vale do Tejo impossibilitadas de realizar abortos devido ao número de objectores de consciência.


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Artigo de Opinião


José Basílio Simões
Docente da U.C.

Coimbra Living Lab

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