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Agostinho Almeida Santos assumiu a presidência do Conselho de Administração dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) há pouco mais de um ano. Em entrevista ao DIÁRIO AS BEIRAS fala sobre as estratégias de gestão e de investimento para aquele que é “o maior hospital do país”.
DIÁRIO AS BEIRAS – Já conhecia a “casa”, mas quando assumiu a presidência do Conselho de Administração dos HUC foi surpreendido pelos desafios?
Agostinho Almeida Santos – Conhecia mal o hospital, em termos físicos. Estive algum tempo aqui, no Serviço de Ginecologia, mas depois fui para o Edifício de S. Jerónimo e para a Maternidade, pelo que estava um pouco afastado. E não deixa de ser surpreendente o que vim encontrar. A minha primeira decisão foi constituir a minha equipa e logo a seguir quis conhecer a casa e os seus problemas. Para isso reuni-me com todos os directores de serviços de acção médica, enfermeiros-chefes e responsáveis das áreas técnicas e administrativas, de uma forma sectorial. Fizemos reuniões fora do ambiente hospitalar para que todos se pronunciassem sobre as suas preocupações, anseios e projectos, que depois me apresentaram num texto. E comecei a aperceber-me das dificuldades comuns, das dificuldades específicas, das grandezas e das insuficiências de cada serviço. Depois o Conselho de Administração visitou todos os serviços de acção médica, mas também as áreas de apoio, onde ouviu os problemas, mas de uma forma vivida.
Esse diagnóstico levou algum tempo...
Levou meses, mas era necessário para definir as estratégias, sobretudo na área dos investimentos, e para percebermos qual devia ser a estratégia em termos de apoios e de solidariedades e do empenhamento em certas áreas que são muito carenciadas, por exemplo no bloco de Celas, a par de outras que têm o que de melhor há no mundo. É necessário manter algum equilíbrio porque os doentes são os mesmos. Em 2005 a estratégia foi conseguir viver com um orçamento que não tinha elaborado e que pouco tempo depois de tomar posse, por determinação ministerial, foi reduzido em 5%. Apesar de tudo os resultados foram relativamente satisfatórios em 2005, embora tenha existido um orçamento rectificativo que foi muito afagador.
Mas este ano não há orçamento rectificativo?
Não. Contratualizamos o contrato-programa com o Ministério da Saúde, com seriedade, com transparência, temos receitas e despesas e temos que gerir porque não podemos chegar ao fim do ano com saldos demasiados negativos, porque isso implica um descrédito institucional e dificuldades em pagarmos os nossos compromissos. As despesas com os funcionários, que são cerca de 5.000, representam 51% do orçamento do hospital, os medicamentos representam cerca de 24% e há as outras despesas. Era necessário gerir e por isso a política foi pedir aos serviços que fizessem os seus próprios orçamentos.
Que culminaram com a assinatura dos contratos-programa com os serviços?
Exacto, assinámos contratos-programa com os serviços, numa cerimónia pública, e depois foi feito o acompanhamento. Durante este mês, por exemplo, reunimos com os serviços para avaliar o cumprimento dos contratos, saber se havia desvios e o que é que podia ser corrigido até ao final do ano. Na passada sexta-feira tivemos também uma reunião com o secretário de Estado e a equipa ministerial que está a fazer o acompanhamento do contrato-programa e a avaliar as projecções até ao final do ano e foi-nos dada a boa notícia que íamos receber já uma parte substancial do valor de convergência, sinal de que nos portamos bem.
Os contratos-programa estão a revelar-se eficazes?
Já são uma realidade em termos de gestão, em que cada um assume as suas responsabilidades, e não existem grandes desvios. Evidentemente que se é sempre optimista quando se projecta e podem surgir algumas dificuldades. Por exemplo, tivemos uma dificuldade na passagem do PECLEC ao SIGIC (Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia) demorou muito tempo a negociar com os serviços, há várias classes socioprofissionais envolvidas. A determinado momento o Conselho de Administração teve que determinar as regras e como esta é uma actividade voluntária os serviços só aderiam se quisessem. E praticamente todos aderiram ao SIGIC e estão a trabalhar de forma significativa. O SIGIC devia ter começado em Janeiro mas só começou em Julho, mas já conseguimos reduzir a lista de espera cirúrgica de 19 mil doentes para cerca de 14 mil.
Existia a ideia que nos hospitais os blocos operatórios só trabalhavam de manhã?
Hoje já se opera em muitos serviços até às 07H30 ou 20H00. Aquela noção que as salas de operações só trabalham até ao meio-dia já é da história. As pessoas compreenderam que tinham que mudar porque estamos a falar de dinheiro que deduzimos dos nossos próprios impostos. E não se pode conceber que haja doentes com esperas tão longas para cirurgias, mesmo que algumas situações sejam menos urgentes. Hoje há uma cultura um bocadinho diferente, muitos médicos mais jovens já estão em dedicação exclusiva no hospital e depois há incentivos para quem trabalha.
O Tribunal de Contas afirmou que havia 25% de desperdício no Serviço Nacional de Saúde. É assim?
Claramente que há, mas pode ser controlada. Dou-lhe três exemplos. Deixar as luzes acesas toda a noite é um desperdício, tentei sensibilizar as pessoas para isso e a factura da energia já começou a baixar. Não tem significado nas contas, mas não deixa de ser culturalmente importante. Tomámos uma medida para diminuir o consumo de água nos 3.500 autoclismos do hospital, diminuindo o débito de cada descarga em 2,5 litros, sem comprometer minimamente as condições de higiene. Mas nos medicamentos fazemos exactamente o mesmo. O sistema de gestão informatizada de prescrição on-line evita o desperdício por erros na interpretação e o sistema de unidose, dose individualizada e dose diária possibilita a recuperação dos medicamentos que não sejam utilizados. Isto é quebrar o desperdício e vemos que poupámos em medicamentos cerca de 10%. E no futuro, se avançarmos para um sistema informático, podemos fazer o controlo da prescrição no domicílio, porque muitos doentes, sobretudo crónicos, levam daqui a medicação para tomar em casa. São medidas simples mas que têm que ser implementadas, porque aqui tudo é multiplicado por um factor exponencial muito grande.
Essas medidas aliadas aos contratos-programa com os serviços têm resultado?
Julgo que sim, hoje não é preciso dizer às pessoas para poupar porque elas assinaram contratos-programa. Julgo que vamos cumprir mais ou menos aquilo que tínhamos delineado, sobretudo nas áreas em que há imperativos.
Como os limites nas despesas com o pessoal e com os medicamentos?
Dois dos imperativos do nosso contrato-programa é que não podemos aumentar a despesa com o pessoal mais que 1,5%, em relação a 2005, e manter o aumento da despesa com medicamentos abaixo dos 4%. Espero não fugir muito. Talvez a despesa com o pessoal ultrapasse um pouco mais, porque 1,5% foi o aumento da Função Pública e, por outro lado, não podemos prescindir de pessoas de um dia para o outro. Pode haver um pequeno desvio da meta traçada, mas é sobretudo pelo aumento que sofreram as prestações sociais, não é pelos salários. Há um pequeno desvio excedentário nas horas extraordinárias, mas é porque o seu preço aumentou.
A despesa com medicamentos está controlada...
Nos HUC o consumo de medicamentos em 2005 representou 56 milhões de euros, bastante menos que no hospital de Santa Maria, por exemplo, que foi de 81 milhões de euros. Actualmente o aumento da despesa com medicamentos está controlada e sem restrições. Ninguém pode dizer que precisou de um medicamento e o Conselho de Administração não deu, a menos que não esteja indicado naquela situação clínica. Os medicamentos do formulário nacional não se podem recusar. Quanto aos que são extra-formulário fazemos um controlo. Depois da prescrição do médico o director de serviço autoriza, o director clínico avalia se há indicação clínica e o Conselho de Administração autoriza a compra. Mas ao fim de três meses vamos avaliar se o medicamento está a fazer efeito e se a situação clínica teve evolução favorável. Se a situação não evoluiu normalmente o próprio médico suspende a medicação por falta de indicação clínica.
Também devem muito dinheiro aos HUC?
Em termos globais as dívidas aos HUC cifravam-se, no passado mês de Agosto, em quase 89 milhões de euros e devíamos 51 milhões. Mas temos feito uma política intensiva de cobranças que está a ser relativamente eficaz. E se calhar somos o hospital do país que paga mais depressa aos fornecedores: estamos a pagar a pouco mais de dois meses, o que dá alguma capacidade negocial, mas sobretudo uma tranquilidade enorme e uma imagem de credibilidade ao hospital.
O quadro de pessoal dos HUC é deficitário?
Seria possível desempenhar as mesmas funções com menos pessoal, que estivesse mais tempo no hospital. As pessoas entendem que precisam sempre de mais pessoal, mas a boa gestão leva a que com os recursos que se tem se possa fazer o mesmo e fazer melhor. O número de efectivos diminuiu, porque nem sempre à saída de um corresponde à entrada de outro, apesar de termos aumentado o pessoal de enfermagem, porque os horários acrescidos acabaram. Contrariamente ao que acontece na área médica, onde é muito preocupante a falta de renovação de quadros, que está envelhecido, porque os internos não se fixam, por falta de vagas. Esta situação é preocupante e, não de forma imediata, vai reflectir-se na assistência às populações e é preciso que os decisores políticos estejam atentos, porque é a saúde pública que está em causa.
Como classificaria este primeiro ano de mandato, em termos de gestão?
De muita exigência. Trabalhei aqui como nunca trabalhei na vida e sempre trabalhei muito. Costumava dizer que trabalhava de sol a sol, agora digo que trabalho de lua a lua, porque entro no hospital ainda é noite e saio já de noite. E de muito rigor e muita disciplina, e a disciplina é um exemplo que se dá. E de transparência. Por exemplo, hoje os directores de serviço são nomeados com base em candidaturas. Quem reúne os requisitos legais apresenta uma candidatura, com curriculum vitae, plano de acção e um programa a três anos. O director clínico analisa a parte curricular, o conselho de administração o programa e plano de acção, tudo é classificado nos vários itens, faz-se a média aritmética e decide-se quem é nomeado.
Acha que o Serviço Nacional de Saúde é sustentável?
Gostaria de demonstrar objectivamente que é, estou a fazer todo o meu esforço para isso.
“Se calhar um dia temos que passar a EPE”
Ao contrário dos outros hospitais universitários, os HUC decidiram não adoptar o estatuto jurídico de Entidade Pública Empresarial (EPE)...
Por um lado, tinha o desejo de demonstrar que este sistema pode ser gerido. Eu sei que o sistema EPE é muito mais agilizado, posso contratar pessoal mais facilmente, as aquisições são mais facilitadas porque não há concursos públicos e se calhar o poder negocial também é maior, mas também tem alguns problemas, porque o facilitismo não é bom conselheiro. E há um capital social que é aliciante, mas que está no Tesouro, mas ao qual alguns hospitais já recorreram. Precisavamos de uma forma de gestão restritiva e se adoptasse um modelo mais permissivo, como o EPE, tinha menos argumentos para a restrição. E se um dia o sistema de saúde entrar no descalabro, espero que não, isso reflecte-se no país e vamos todos pagar a factura através das recriminações de Bruxelas. Há quem não concorde comigo no seio do Conselho de Administração e se calhar um dia temos que passar a EPE. Mas se o hospital tiver que passar a EPE será com a tranquilidade de termos conseguido, apesar de tudo, uma gestão equilibrada no sector público administrativo. E teremos capacidade para reivindicar mais condições de gestão.
De que restrições fala?
Restringimos muito a área de investimento, porque se gastasse muito aí teria que reduzir noutro lado. Mas fui tentando e investi onde era absolutamente imprescindível.
A recuperação das fachadas avançou...
Além da recuperação das fachadas, que é uma obra muito importante e de grande investimento, fizemos a renovação total do bloco operatório em termos de equipamentos, fizemos obras no Serviço de Doenças Infecciosas, que era uma zona carente e está completamente renovada, concluímos o processo de digitalização da imagem, já não há película neste hospital, e apostamos nos transplantes, também na área hepática, a genética e medicina da reprodução tem tido algum desenvolvimento. Fizeram-se outras coisas, mas estes foram os investimentos mais importantes.
Quais as principais prioridades no investimento, no futuro?
Há muito para ser feito. Um investimento urgente, embora não seja estratégico, é intervir no estacionamento no hospital, onde circulam diariamente cerca de 30 mil viaturas. Está caótico e vai piorar à medida que começar a funcionar o Pólo III. No investimento gostaria de começar pelo que está pior e Celas é uma preocupação, porque tem zonas bastante degradadas que não são compatíveis com uma gestão coerente. Quanto a projectos, gostava de fazer uma grande área de cirurgia do ambulatório, que está a aumentar muito, mas está limitada a pequenas unidades. Seria também importante criar uma zona de hospital de dia mais ou menos centralizada, para além daquele que existe para a área oncológica. Finalmente, mas este é um sonho, seria importante criar na zona de Celas, que é um espaço nobre, com seis hectares, um grande centro de check-up, onde o cidadão pudesse ter a sua saúde estudada e a prevenção adequada. Também em Celas gostaria de criar uma clínica da mulher, que visse a mulher como um todo, com uma visão integral e completa, que reunisse a ginecologia, a prevenção do cancro, o acolhimento da mulher que inicia a fase reprodutiva, disponibilizasse técnicas de reprodução assistida, onde a mulher pudesse ter os seus filhos.
Um marco na história
do “maior hospital do país”
Os HUC assinalam amanhã o 20.º aniversário do edifício central. É um marco na história do hospital...
Este hospital tem séculos de existência, mas a transferência para este novo edifício, há 20 anos, representa um passo gigantesco na evolução do hospital. Este é o maior edifício hospitalar do país e é a unidade prestadora de cuidados de saúde com maior movimento assistencial. Portanto, 20 anos representam muito. Comemoramos esta data com muito simbolismo, mas por outro lado com muita alegria, com um sentimento de dever cumprido.
Os HUC podem ser considerados o maior hospital do país?
É o maior hospital do país. Os números oficiais indicam que os HUC têm o maior número de camas, 1.505. A taxa de ocupação é mais ou menos idêntica nos três hospitais universitários, à volta de 78 a 79%, mas aqui fazem-se mais cirurgias que em qualquer outro hospital do país. Em 2005 efectuamos 34.798. Em consultas externas somos os segundos, com cerca de 487 mil. Temos menos urgências, o que é natural dado a população que servimos e ao facto de não temos Pediatria.
E com serviços diferenciados...
A qualificação dos hospitais afere-se pelo índice de case mix, quanto mais elevado, maior é a diferenciação e qualidade dos serviços prestados. Segundo números oficiais o case mix dos HUC é de 1,2082, o do Hospital de Santa Maria é de 1,1905 e o do Hospital de S. João é de 1,1483. Temos o índice de case mix mais elevado. Mas de facto não somos o maior hospital em orçamento. Para os contratos-programa de 2006 o valor do contrato dos HUC com o Serviço Nacional de Saúde é de 212 milhões de euros. E em valor de convergência, a verba que o Ministério dá para suprir alguns dos constrangimentos dos hospitais universitários, que têm ensino e que têm diferenciações específicas, somos mesmo pequenos: 25 milhões para os HUC, 43 milhões para o S. João e 40 milhões para Santa Maria.
Há alguma injustiça?
Onde poderá haver algum critério diferenciador é no valor de convergência, que é arbitrariamente atribuído pela tutela. Aí sentimo-nos um pouco penalizados, porque achamos que tínhamos direito a mais.
Amanhã serão também assinalados os 50 anos do Serviço Domiciliário dos HUC?
É o único hospital, dos grandes hospitais, que tem esta valência. O hospital deve projectar-se na sociedade, na família, onde deve acompanhar cada vez mais os seus doentes, e esta é uma valência fundamental. Estamos neste momento a tentar criar um sistema de implementação de altas que possa permitir que o doente em determinadas circunstâncias clínicas possa ser encaminhado para o seu domicílio e acompanhado, quer pelas equipas que se deslocam diariamente, quer através de meios informáticos. É possível que o doente possa ser acompanhado por uma equipa de saúde que do hospital lhe vai perguntando como se sente, se tomou os comprimidos, se mediu a tensão arterial. Basta um ecrã e um pouco de telemedicina. O número de visitas domiciliárias, médicas e de enfermagem foi em 2005 de 6.398.
Amanhã toma também posse o Conselho Consultivo...
É um órgão estatutário que tenho muito empenho em ver institucionalizado, com poder consultivo mas que poderá, de alguma forma, dar algumas orientações estratégicas. O seu presidente é José Luís da Cruz Vilaça, que foi presidente do Tribunal Europeu e das Comunidades, e inclui como vogais Joaquim José Sousa Dinis, juiz conselheiro que pertenceu ao Supremo Tribunal Administrativo, e a enfermeira Maria Helena Correia, que pertenceu aos HUC. Estes são os três membros de designação ministerial, mas é ainda constituído por três elementos das assembelias municipais que drenam mais doentes para o hospital e representantes eleitos dos vários sectores profissionais do hospital.
E é um hospital de ensino?
Foi assinado em finais de Julho um protocolo de colaboração entre o reitor da Universidade e os HUC, para o desenvolvimento das acções pedagógicas necessárias ao 6.º ano, em que participam médicos hospitalares, nas horas normais do seu serviço hospitalar, nos termos da lei. No hospital circulam 1.500 estudantes por dia. Embora a primeira vocação do hospital seja a assistencial, o ensino é também uma das suas vocações, juntamente com a investigação, que não descuro de forma nenhuma.
A saúde continua a ser estratégica na cidade...
Coimbra continua a ser a “capital da saúde” e temos que assumir as responsabilidades inerentes, fazer mais, se possível melhor, mantendo o padrão da qualidade e da eficiência e o padrão da humanidade.
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