24 | FEV | 04
TERÇA-FEIRA

















   

Fernando Rebelo

Reflexões sobre a vida universitária
 47. Os visitantes ilustres da Universidade
É muito difícil traçar a fronteira entre visitantes normais e visitantes ilustres. Na verdade, muitos dos visitantes que parecem vulgares turistas são individualidades importantes em Portugal ou nos seus países. No entanto, algumas individualidades pedem para visitar a Universidade ou pedem para apresentar cumprimentos ao Reitor, o que, quase sempre, significa o mesmo. Outras, ainda, vêm para ser doutoradas “Honoris Causa” e, naturalmente, proporciona-se-lhes uma visita. Claro que às personalidades que vêm muitas vezes a Coimbra, só quando há algo de novo a mostrar é que se lhes proporciona uma visita parcial. O Presidente Mário Soares terá estado algumas dezenas de vezes na Universidade; após o seu segundo mandato presidencial, foi doutorado “Honoris Causa”, foi professor catedrático convidado da Faculdade de Economia e foi conferencista noutras. O Presidente Jorge Sampaio foi, por mim, recebido, sete ou oito vezes em quatro anos de reitorado. Numa das suas vindas a Coimbra, tive a oportunidade de lhe mostrar a Sala do Exame Privado, acabada de reabrir em todo o seu esplendor, após o restauro dos retratos de todos os Reitores desde o século XVI até ao século XVIII. Mas os Presidentes da República não podem considerar-se visitantes – a Universidade, apesar da autonomia, recebe-os como seus presidentes, à semelhança do que se passava com os reis de Portugal, no tempo da Monarquia; por isso, são as únicas entidades que têm o direito de presidir às cerimónias universitárias. Já os senhores ministros, por exemplo, são visitantes ilustres; pude servir de cicerone a alguns que ou não conheciam ainda algumas partes históricas da Universidade ou desejavam recordar visitas antigas. E em quatro anos recebi um primeiro-ministro, António Guterres, e 18 ministros do Governo português!
Como Vice-Reitor, graças à generosidade do meu Reitor, Professor Rui de Alarcão, e dos meus colegas vice-reitores professores Poiares Baptista e Jorge Veiga, mais antigos do que eu, recebi personalidades como o Presidente da República Federal da Alemanha, Richard von Weizsaecker, quando chegou à Estação Velha, o presidente da Comissão Europeia, Jacques Delohrs, quando chegou ao aeródromo de Cernache, e o secretário-geral da ONU, Xavier Perez de Cuellar, quando chegou ao Palácio de São Marcos. Mas também recebi o professor Christian Barnard, o ex-presidente do Senegal, Léopold Shengor, o ex-presidente da França, Giscard d’Estaing, o então presidente da Região Poitou-Charentes e hoje primeiro-ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, bem como os embaixadores dos Estados Unidos da América, da França, de Espanha, da Suíça, do Brasil, da Índia e de Israel. Recebi, igualmente, Caetano Veloso; gostou tanto da Universidade que a veio visitar outra vez, doze anos depois, voltando eu a recebê-lo, mas já como Reitor.
Naturalmente que se trata de uma pequena amostra das muitas personalidades que nos visitaram durante os quatro mandatos do professor Rui de Alarcão. Mas a atracção da Universidade de Coimbra como lugar de grande importância cultural manteve-se forte, apesar da mudança de Reitor. Foi já nesta qualidade que recebi cinco chefes de Estado. Três deles vieram em virtude do seu doutoramento “Honoris Causa” – os presidentes da República de Moçambique, Joaquim Chissano, da República de Cabo Verde, Oscar Mascarenhas Monteiro, e da Nação Argentina, Fernando de La Rua. Dois vieram em visita normal, o Presidente da República de São Tomé e Príncipe, Miguel Trovoada, e o Presidente da República de Cabo Verde, Pedro Pires. Recebi, ainda, o vice-presidente da República do Panamá, que aproveitou a visita para assinar um protocolo com a Universidade do seu país. Normalmente, os senhores presidentes eram acompanhados por ministros e, muitas vezes, as visitas eram preparadas por embaixadores que, antes, vinham, eles próprios, à Universidade. Fosse com esse objectivo ou fosse com outros, recebi, nos meus quatro anos de reitorado, 16 embaixadores (embaixadores de Angola, Argentina, Brasil, Cabo Verde, Cuba, Espanha, Finlândia, França, Moçambique, Panamá, Polónia, Reino Unido, S. Tomé e Príncipe, Suiça, Tailândia e Tunísia).
Algumas das visitas resultavam de interesses manifestados directamente ou por intermédio das embaixadas. Como exemplo deste último caso, a que mais me impressionou foi, sem dúvida, a visita da princesa da Tailândia, Maha Chakri Sirindhorn.
Na sua visita a Portugal escolheu a Universidade de Coimbra como única universidade a ver. Numa simplicidade desconcertante, a Princesa interessou-se por tudo, pela História, pela Arte, pela organização dos saberes na Universidade, pelas características dos cursos, pela investigação científica, pelos livros existentes na Biblioteca Joanina, etc. E tomava notas, muitas notas, no seu caderno, notas que acompanhava com pequenos desenhos. Impressionante!
Recebi, igualmente, três prémios Nobel da Paz, Ximenes Belo, José Ramos Horta e Dalai Lama, e, por duas vezes, o nosso Prémio Nobel da Literatura, José Saramago. Uma das visitas mais comoventes foi a de Xanana Gusmão, agora Presidente da República de Timor-Leste, que acabou por ver pouco da Universidade, tanta foi a gente que se juntou para o ver a ele.
Não posso, todavia, esquecer o número elevado de visitas ilustres que nos chegaram por indicação de um grande amigo da Universidade de Coimbra, que durante parte do meu mandato ocupou o alto cargo de Presidente da Assembleia da República e que nessa qualidade recebi por diversas vezes – António de Almeida Santos. Foram vários presidentes de assembleias que, depois de estarem em Lisboa, vieram a Coimbra visitar a Universidade. Quase sempre em grupos, com deputados e altos funcionários, e quase sempre acompanhados por um vice-presidente da Assembleia da República. Comigo estiveram a presidente do Congresso de Deputados de Espanha, o presidente do Senado da Argentina, a presidente do parlamento da Finlândia, o presidente do parlamento da Confederação Helvética, o presidente da Câmara de Representantes de Marrocos, e o presidente da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, Lord Russel-Johnston, entre muitas outras personalidades a quem o então presidente da Assembleia da República aconselhou uma visita à Universidade de Coimbra. Recordo palavras de admiração e de espanto. Recordo palavras de elogio e de incentivo. A Universidade de Coimbra é mesmo uma universidade especial, que merece, também dos portugueses, um tratamento especial. Disto não tenho dúvidas.




Imprimir
Comentar
Topo
Voltar

  
Login
E-mail:
Password:
Última hora
Concorda com a criação de um curso de Medicina de quatro anos em Aveiro?
Sim
Não
     
Artigo de Opinião


José Basílio Simões
Docente da U.C.

Coimbra Living Lab

PUB