|
Albano Silva Pereira, director do Centro de Artes Visuais (CAV) de Coimbra traçou, em entrevista ao DIÁRIO AS BEIRAS, um quadro negro no relacionamento da instituição com a autarquia.
DIÁRIO AS BEIRAS – De que forma o CAV está a cumprir a programação que delineou e a que deu início com o projecto de Jorge Molder e que prossegue agora com a exposição de fotografia e filme na Colecção Ellipse?
Albano Silva Pereira – A dois níveis. Primeiro, com o prestígio e o património que os Encontros de Fotografia ganharam no país, particularmente no relacionamento com pessoas e instituições, que se baseia em cumplicidades e identidades estético-filosóficas no campo da arte. Os Encontros de Fotografia foram um grande pólo em relação às artes visuais durante 20 anos. Mais do que isso, foram pioneiros. Portanto, foram os primeiros a criar uma colecção. Por outro lado, em todos os projectos que produziram e mostraram ao país, nas colaborações que tiveram – com a Fundação Gulbenkian, com a Fundação de Serralves, com a Fundação Luso-Americana – avalizaram a qualidade, o prestígio e, sobretudo, o grau de profissionalismo, de qualidade que esta instituição conseguiu até agora. Portanto, por um lado, é possível assim conseguir grandes, qualificadas exposições internacionais. Por outro lado, em termos nacionais também funcionam essas credenciais. Não nos esqueçamos que uma das primeiras exposições de inauguração do Centro de Artes Visuais foi a colecção de Serralves, foi parte da colecção ligada aos registos da fotografia e do vídeo. Falamos de instituições como a Whitechapel Art Gallery, em Londres, a Jeau de Pomme, em Paris, inúmeras galerias da mais alta qualidade mundial, com as quais produzimos exposições do projecto “Em Jogo”. Não há dúvida que os Encontros de Fotografia e o CAV, na sua nova filosofia, no seu novo relacionamento em relação à imagem num todo conseguiu, de facto, créditos. Porque na vida cultural, como na vida científica, como na vida política, é preciso créditos.
São esses créditos que estão a manter a actividade do CAV?
A manter parte da actividade do CAV. A outra parte é mantida pelas dívidas aos fornecedores e pelo crédito bancário, um outro tipo de crédito. De facto, posso dizê-lo e já o disse com grande objectividade e rigor, que a instituição só tem as portas abertas e continua a trabalhar desta forma, reduzindo drasticamente a programação e todos os seus propósitos de desenvolver um serviço educativo na sua plenitude, com estes recursos. Isto porque desde 31 de Dezembro de 2004, desde há três anos, que o CAV não recebe um tostão da Câmara Municipal de Coimbra. Isto quer dizer que o CAV deixou de receber a comparticipação que existia em protocolo até 2004 e que correspondia a 200 mil euros atribuídos pela câmara municipal a somar aos 300 mil euros do Ministério da Cultura. O que, apesar de tudo era um co-financiamento insuficiente para desenvolver em plenitude a programação e todo o projecto – educativo e de animação – que estava previsto. Mas era um orçamento mínimo suficiente e digno para desenvolver programação, parcerias e mecenato. Desde 2004, como disse, não há esses 40 por cento da autarquia.
Com que financiamento está o CAV a viver?
Está a viver exclusivamente do protocolo com o Ministério da Cultura, em três prestações num todo anual de 300 mil euros. As portas abertas, a sobrevivência do Centro de Artes Visuais deve-se exclusivamente a este financiamento. Por outro lado, deve-se ao crédito bancário, avalizado por mim em cerca de 150 mil euros e a dívidas a fornecedores num valor aproximado. Isto não é fácil, é muito arriscado e é profundamente injusto que a sobrevivência do CAV se encontre nestes termos, nesta altura. Em conclusão, a sobrevivência do CAV deve-se à cumplicidade, à solidariedade, à compreensão de algumas instituições internacionais, de artistas e instituições nacionais – como o caso da Fundação Ellipse, do dr. João Rendeiro, com a exposição a inaugurar hoje mesmo, como a exposição anterior do dr. Jorge Molder –, entre outros exemplos. Neste momento, o futuro da instituição é muito difícil, sendo que a grande responsabilidade cabe à Câmara Municipal de Coimbra. Mas também ao Ministério da Cultura, que tem uma co-responsabilidade nesta matéria, porque estamos a falar de um equipamento e de uma instituição que tem 27 anos, que só tem dado prestígio, qualidade, visibilidade à cidade de Coimbra, através do seu festival e através do Centro de Artes Visuais.
Então a responsabilidade pela manutenção de um equipamento desta natureza deve ser repartida entre o Ministério da Cultura e a autarquia de Coimbra?
Claro. E em certa medida é, embora esteja a sofrer a redução drástica dos 40 por cento que correspondem à Câmara Municipal de Coimbra. Mas em relação à autarquia o que se passa é o seguinte: um ano depois do protocolo ter cessado – a 31 de Dezembro de 2004 –, a 10 ou 12 de Maio de 2005 fui recebido pelo senhor chefe de gabinete do sr. presidente da câmara que me deu conta que o montante iria ser exactamente igual e que o protocolo iria manter-se em termos financeiros, com 200 mil euros. Isso não aconteceu e no dia 28 de Dezembro de 2005, recebemos uma minuta da câmara municipal, através do sr. vereador da Cultura, a referir a atribuição de um montante de 60 mil euros. Depois de sucessivas reuniões com o sr. vereador, onde lhe demos conta da asfixia financeira da instituição e da injustiça da proposta de financiamento, sobretudo porque tem de integrar-se aqui o custo do funcionamento de um edifício com 1600 metros quadrados e as características e especificidades que tem, com electricidade, segurança, limpeza, recursos humanos...
Quais são os custos fixos deste projecto?
Os custos de funcionamento de um equipamento destes estão à volta de 200 mil, 220 mil euros. Como qualquer pessoa séria compreenderá, um equipamento destes precisa de pessoas, porque é de todo o interesse que toda a capacidade de financiamento e de investimento se faça à volta da programação e dos seus projectos. Este é um equipamento que foi adaptado em obras de centenas de milhar de contos, financiadas pela Câmara Municipal de Coimbra, pelo Ministério da Cultura e pelo Ministério do Equipamento, além dos fundos comunitários, que eu agradeço em nome da instituição, que veio do executivo anterior, que o executivo do dr. Carlos Encarnação continuou e que depois, injustificadamente, cortou até aos 60 mil euros, penalizando gravemente a instituição. Isto é uma falta de respeito pelo grande trabalho, pelo prestígio e pela qualidade desenvolvidos durantes todos estes anos e, em particular, durante o primeiro mandato do dr. Carlos Encarnação, com a colaboração solidária, voluntária e respeitosa que mantivemos durante a Capital da Cultura. Por isso também, mostramos agora a nossa indignação pela atitude e pela forma como estamos agora a ser tratados. É que, meio ano depois de termos aceite assinar o protocolo proposto pela câmara municipal, nem a proposta dos 60 mil euros foi cumprida. Há aqui um processo inequívoco de asfixia da instituição, de falta de respeito.
O que é que se passou que justifique essa inversão na posição da Câmara Municipal de Coimbra?
Eventualmente, o sr. presidente da Câmara Municipal de Coimbra tem duas concepções da cultura. Uma, de grande respeito, num discurso onde a cultura cabe como o vector do desenvolvimento da cidade. No seu primeiro mandato. Outra, é chamar subsidiodependentes às mesmas pessoas e instituições que antes respeitou. É importante dizê-lo: já por várias vezes me apeteceu ir á sessão pública da câmara entregar a minha medalha de mérito da cidade, que me foi atribuída por unanimidade, penso que em 1998. Num primeiro mandato houve uma grande disponibilidade e um grande acompanhamento, neste segundo mandato o CAV foi esquecido.
Como é que esta situação se resolve?
Com bom senso e com respeito, que era uma coisa que eu estava absolutamente convencido que o dr. Carlos Encarnação tinha. Porque me deu provas disso no seu primeiro mandato. E a grande verdade é que a partir de 2004, em que pedi sucessivas audiências, nunca consegui ser recebido pelo sr. presidente de câmara.
Colecção Ellipse mostra
fotografia e filme no CAV
São mais de três dezenas os artistas consagrados no campo da imagem que o CAV, de Coimbra, e a Fundação Ellipse se propõe mostrar numa exposição a realizar em dois tempos.
Foi também das “cumplicidades e solidariedades” reunidas em quase três décadas de Encontros de Fotografia e de Centro de Artes Visuais (CAV), que resultou a exposição a inaugurar hoje no extraordinário edifício adaptado por João Mendes Ribeiro no Pátio da Inquisição, em Coimbra. Em co–produção com a Ellipse Foundation, o CAV inaugura, às 19H00, a primeira parte de uma mostra que tem como objectivo dar a conhecer a fotografia e o filme da Colecção Ellipse.
Comissariada por Delfim Sardo - o actual responsável pela definição da programação que é ainda possível fazer no projecto do Centro de Artes Visuais - a exposição “EDIT! Fotografia e Filme na Colecção Ellipse” apresentará obras de referência no campo da fotografia e do filme de artistas nacionais e estrangeiros com percursos consagrados.
De acordo com uma nota da produção, a exposição será efectuada em dois momentos, na primeira parte serão apresentadas obras de 12 artistas e na segunda parte - que será inaugurada a 30 de Junho próximo - serão apresentadas obras de outros 22 artistas. Nesta primeira parte, o público poderá contar com fotografias e filmes assinados por John Baldessari, Lothar Baumgarten, Bernd & Hilla Becher, Dan Graham, João Maria Gusmão & Pedro Paiva, Jürgen Klauke, Steve McQueen, Catherine Opie, Ed Ruscha, Allan Sekula, Thomas Struth e Jeff Wall.
A segunda parte da exposição irá integrar, entre outros, nomes como Matthew Barney, Rineke Dijkstra, Olafur Eliasson, Felix Gonzalez–Torres, Douglas Gordon, Cameron Jamie, Louise Lawler, Sherrie Levine, Rosângela Rennó, Collier Schorr, Lorna Simpson, João Tabarra, Wolfgang Tillmans e James Welling.
Programada para ficar patente até 9 de Setembro próximo, a exposição será acompanhada por um catálogo com a reprodução das obras expostas e textos de Albano Silva Pereira, Delfim Sardo e João Rendeiro, o responsável pela Ellipse Foundation.
De acordo com Albano Silva Pereira, “é com o maior prazer que o Centro de Artes Visuais apresenta esta exposição da Colecção da Ellipse Foundation, por várias razões: em primeiro lugar, porque esta colecção é um espólio de enorme qualidade; em segundo lugar, porque o sector que decidimos apresentar, na selecção curatorial de Delfim Sardo, se situa no centro das preocupações e linha de intervenção do CAV, isto é, apresentando obras em suporte fotográfico e fílmico; por último, porque a preocupação de mostrar o melhor do coleccionismo privado na arte e na fotografia contemporâneas tem vindo a constituir uma linha de trabalho importante para o Centro de Artes Visuais”.
Coimbra abre ciclo
no país e estrangeiro
Mesmo porque, como diz ainda o responsável pelo CAV no texto que assina, “neste conjunto de obras e autores encontram–se os percursos de inventariação e conhecimento do corpo, o carácter documental, a preocupação com a cidade como lugar de negociação, confronto e reconhecimento, questões de género e de identidade, a abertura ao político como às poéticas da subjectividade”.
E ficamos a saber também, de acordo com João Rendeiro, presidente da Ellipse Foundation, que “a mostra da Colecção Ellipse no CAV é o início de um ciclo que mostrará nos próximos anos a colecção em Portugal e no estrangeiro”.
Para Delfim Sardo, o responsável pela curadoria da exposição que esta tarde abre no Pátio da Inquisição, “a Colecção da Ellipse Foundation é hoje uma das mais importantes colecções de arte contemporânea existentes em Portugal e, neste momento, a única colecção que se encontra em exposição pública”.
“Múltipla na sua abordagem, mas claramente situada no mapeamento da arte recente”, prossegue Delfim Sardo, “a colecção da Ellipse Foundation permite abordagens muito diversas, perspectivas curatoriais ideológica e culturalmente posicionadas de pontos de vista distintos e, nesse sentido, narrativas sobre a cultura contemporânea vinculadas a momentos e desenvolvimentos artísticos diferentes”.
|