25 | AGO | 04
QUARTA-FEIRA

















   

Mário Nicolau

Manipular a tradição
A farmácia de oficina continua a resistir. A maioria dos medicamentos manipulados são para a área da dermatologia. Mas o progresso não perdoa.
A farmacêutica Inês Cardoso da Costa, da Farmácia Figueiredo, disse ao DIÁRIO AS BEIRAS que “a maioria das farmácias ainda faz manipulados”. Na conversa com o jornalista a jovem farmacêutica revela–se uma defensora dos produtos da farmácia de oficina, que a “Farmácia Figueiredo já fez e vai continuar a fazer depois das obras de remodelação”. “Foi ai que tudo começou, é dai que viemos”, afirma. Ou seja: o número de medicamentos prontos a usar era reduzido, sendo necessário produzir a maior parte. Por outro lado, a ligação ao doente por parte do farmacêutico era muito diferente, sendo marcada pela proximidade - e, nalguns casos, por amizades de muitos anos.
Inês Cardoso da Costa lembra que a farmácia de oficina resolve o problema dos manipulados que “não existem no mercado” e que nalguns casos, com a colaboração da faculdade e o acompanhamento “dos antigos professores”, é possível produzir, excepcionalmente, nos laboratórios destas entidades, segundo receita médica , “várias soluções orais”. “Em todos os casos a legislação tem de ser respeitada, existindo leis para a preparação, cedência e rotulagem dos produtos”, explica.
Nos manipulados mais vulgares, Inês Cardoso da Costa inclui a suspensão de Trimetropin , da área da Pediatria, que “se faz imenso” e as vaselinas saliciladas que colocam ponto final nos calos de muito boa gente.
A farmacêutica Joana Andrade, ao serviço na Farmácia Universal, aponta os cremes e as pomadas como os manipulados “mais frequentes”. “As tinturas eram outro dos manipulados que as pessoas solicitavam. Agora, já vêm embalados”, conta.
Aliás, a actividade das farmácias a este nível “depende em grande parte do mercado”, existindo “uma certa nostalgia” quando se pensa no futuro.
Do ponto de vista económico, a farmácia de oficina coloca alguns problemas, pois como explicou ao DIÁRIO AS BEIRAS Paulo Matos, da Farmácia Taveiro, em vários casos não é possível comprar pequenas quantidades dos produtos necessários. Assim, e porque “não se vende nada avulso” depois de pronto o manipulado, as substancias adquiridas ficariam a aguardar um próximo pedido, o que, por estes dias, “só acontece de tempos a tempos”. “São cada vez mais raros”, garante. E não só. “Comprar um quilo de um produto para, depois, gastar só uma pequena parte não é viável do ponto de vista económico”, disse.
Apesar dos manipulados “terem um prazo de validade mínimo”, Paulo Matos sublinha o “gosto de os fazer” sempre que há receitas. Recentemente, o ajudante de farmácia viveu mais um desafio na carreira, com um manipulado que “deu enorme prazer produzir”.
Depois de embalado o medicamento manipulado, além de resolver os males do corpo de quem o usa, faz bem ao espírito de quem o produz. O reconhecimento, pelo trabalho do farmacêutico, vem depois, sendo o bálsamo da amizade.


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Artigo de Opinião


José Basílio Simões
Docente da U.C.

Coimbra Living Lab

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