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A visibilidade é uma condição fundamental à existência e ao sucesso das instituições. E é a visibilidade a que tem direito, pela história que conta e pelo projecto que desenvolve, que o Centro de Artes Visuais/Encontros de Fotografia de Coimbra tem reclamado desde que se instalou no Pátio da Inquisição, num extraordinário edifício recuperado de acordo com um projecto de João Mendes Ribeiro. Mais do que as questões financeiras e do que a falta de comunicação com a autarquia, Albano Silva Pereira reclama a possibilidade de o CAV ser “visto” por quem circula entre a Praça 8 de Maio, a Rua da Sofia e a Rua Olimpio Nicolau Rui Fernandes.
O Centro de Artes Visuais (CAV) está a mostrar uma exposição sobre o trabalho do arquitecto Carrilho da Graça, a integrar dois importantes projectos para Coimbra. Esta é uma iniciativa com a sua curadoria. Que significado tem?
Esta é uma situação absolutamente excepcional e de homenagem que o Centro de Artes Visuais faz a projectos desenvolvidos pela Câmara Municipal de Coimbra com o arquitecto João Luís Carrilho da Graça. Em três projectos, há dois que são de Coimbra: a recuperação do Convento de S. Francisco e o Centro Cívico do Ingote. E estes projectos fui eu que os escolhi, com o arquitecto Carrilho da Graça, numa homenagem à qualidade da sua obra e estabelecendo um diálogo entre as artes visuais e a arquitectura. Foi convidado o Augusto Brázio a criar um conjunto de documentos sociais, específicos, relativos ao Centro Cívico do Ingote. Para o Convento de S. Francisco foi convidado o Edgar Martins.
O CAV, uma vez mais, a fazer esta ligação à cidade?
Exactamente. O CAV que começou, aliás, inaugurando uma extraordinária exposição chamada “Coimbra”. Parte do património desta cidade, em termos documentais, encontra-se no Centro de Artes Visuais.
Ainda assim, o diálogo com a autarquia continua a não funcionar?
Parece que não. E é com muita pena que continuamos a verificar que assim é. Aliás, basta ver que na inauguração da exposição, a 27 de Junho, que contou com a presença de muita gente, naturalmente do arquitecto Carrilho da Graça, mas também do ministro da Cultura, não esteve ninguém da Câmara Municipal de Coimbra. Nem Carlos Encarnação, nem nenhum dos seus vereadores estiveram a representar a cidade. E isso nós não podemos deixar de lamentar. Sobretudo quando, em diversas ocasiões, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra tem afirmado a importância que assume para o seu mandato e para a cidade o projecto de recuperação do Convento de S. Francisco. Mas os problemas são vários e, primeiro que tudo, há que fazer uma análise ao que é a fruição da arte e da cultura nesta cidade. Vai haver uma Escola de Artes, ligada ao Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, o ensino da História da Arte é ainda aquilo que é. A ARCA tentou, meritoriamente, desenvolver um projecto ligado às artes, no campo da cerâmica, da fotografia, da pintura, que vem na tradição da uma instituição histórica... Mas a grande verdade é que a cidade não tem um público, substantivamente falando. As nossas exposições são vistas por três/quatro/cinco mil pessoas por ano. Portanto nós temos um público, mas queremos abri-lo. E tentámos, continuamos a tentar, sobretudo junto das escolas. Agora, o problema é este, quando se tem um equipamento com 1.600 metros quadrados, com dois pisos, uma colecção que tem de se organizar e gerir, sem espaços de reserva, vários espaços de exposição... é evidente que é muito difícil com 300 mil euros do Ministério da Cultura e com os 60 mil euros da Câmara Municipal de Coimbra, que nos últimos cinco anos, apesar das propostas de protocolo, foi pago um ano e duas prestações de outro. Objectivamente, foi pago um ano de um protocolo proposto para três anos – 2005, 2006, 2007 –, não se pagou 2008 e pagaram-se até agora duas prestações de 2009. Aliás, 2009 é o primeiro ano em que a câmara municipal está a pagar exemplarmente, com duas prestações na calendarização feita.
A vossa tarefa fica, assim, dificultada?
Fica. Sem dúvida. Por outro lado, é evidente que há um potencial imenso que são os estudantes e a universidade... Mas todos nós sabemos qual é hoje o potencial e a qualidade, a sensibilidade e os limites da cultura dos nossos estudantes. Que, apesar de terem um espaço aberto, apesar de desenvolvermos a comunicação das nossas exposições em dois jornais da cidade – O DIÁRIO AS BEIRAS e o Diário de Coimbra –, num jornal nacional, o Público, e na televisão, não temos conseguido conquistar. Mas, por outro lado, apesar de estarmos instalados num edifício com a marca de João Mendes Ribeiro, que foi premiado pela sua intervenção, apesar de estarmos agora a mostrar alguns importantes projectos para a cidade, com a assinatura de Carrilho da Graça, o arquitecto que foi distinguido com o mais recente Prémio Pessoa, não temos ainda, passados todos estes anos, qualquer peça de sinalética que ligue a Praça 8 de Maio ao Pátio da Inquisição e às instalações do Centro de Artes Visuais.
E a sinalética, que continua por concretizar, representa muito para o Centro de Artes Visuais, mesmo em termos simbólicos?
Representa muitíssimo. Sobretudo a atenção que a câmara tem em fazer comunicar dois equipamentos que promoveu, que financiou, com grandes dificuldades. E aqui há que destacar o grande mérito do presidente da câmara em ter concretizado este projecto, que teve início no mandato anterior, mas que foi concluído pelo executivo do dr. Carlos Encarnação. Isso lhe devemos, a instalação do CAV, e é um acto de justeza dizê-lo. Mas, de facto, em seguida abandonou-nos: passou o financiamento de 200 mil para 60 mil euros, não atribui nenhuma verba ao funcionamento do edifício. E pode imaginar-se apenas a dificuldade de gerir e programar um projecto destes, um edifício com 1.600 metros quadrados (iluminação, ar condicionado...), as pessoas que aqui trabalham, que promovem a abertura ao público, que tem entrada gratuita e promove um verdadeiro serviço público, com 60 mil euros anuais...
E que razões vê para esse “abandono” de que fala?
São várias as razões. Todos nós sabemos – vamos ser o mais objectivos, o mais factuais possível –, o Pátio da Inquisição sempre teve uma história marginal, embora fulcral, em relação à cidade. Foi o tribunal do Santo Ofício, Celas da Inquisição – numa história negra que nós estamos hoje, em certa medida, a exorcizar e a recuperar em termos de liberdade, de alegria, de festa, através da arte –, a seguir teve múltiplas utilizações mas sempre marginais, na sombra da cidade, mais ou menos fechadas. Ora, todo o mérito, todo o investimento que a câmara municipal fez e bem no desenvolvimento e recuperação destes equipamentos, onde têm sede duas instituições [o Centro de Artes Visuais/Encontros de Fotografia de Coimbra e A Escola da Noite] da mais alta referência nesta cidade, com um património que é indesmentível e que tanto deram a Coimbra, na sua promoção, na sua animação, na sua formação, ficaram elas também fechadas, porque passados estes anos ainda não se conseguiu concretizar uma coisa simples mas fundamental como a sinalética.
Continua também por concretizar o grande centro cultural que se pensou para o Pátio da Inquisição?
E isso vai acontecer enquanto grande parte das instalações continuarem a ser repartições camarárias. Esse centro cultural que se quis construir, numa fruição para a cidade, não está a acontecer. Também porque muitas instalações ainda não foram concretizadas, como é o caso da Cena Lusófona. E este misto é muito difícil de ultrapassar, sobretudo, vou dizê-lo de novo, com a ausência de sinalética. E é muito complicado trabalhar nestas condições e desenvolver um projecto, sabendo nós das dificuldades na sensibilização do que é hoje a fruição cultural. Portanto, estamos num espaço por si só fechado à cidade, apesar de nós fazemos os possíveis e os impossíveis. E na abertura deste espaço à cidade nós fomos modelares, nós e A Escola da Noite. Mas queremos mais, queremos muito mais.
Mas nessa abertura é fundamental ter a colaboração da autarquia?
Sem a colaboração da autarquia não é possível desenvolver um projecto viável de abertura à cidade. Mais até do que o apoio financeiro, estas questões são absolutamente fundamentais. E eu posso dar um exemplo flagrante de uma das nossas grandes limitações: desde a sua abertura, havia um projecto de animação a desenvolver no espaço exterior do Centro de Artes Visuais, que é extraordinário, nomeadamente com ciclos de cinema documental, a partir da Primavera, sempre que as condições climatéricas o permitissem. Em 2003, foi aqui instalada de forma provisória – foi assim que foi negociado entre a minha pessoa e o gabinete do senhor presidente da câmara – uma escultura de Pedro Cabrita Reis, que é um orgulho, por se tratar de um grande artista. Mas o facto é que a peça é desproporcionada em relação ao espaço e, por outro lado, restringe decisivamente todo o tipo de utilização do pátio. A câmara, contrariando os acordos e as expectativas, manteve aqui a escultura, que sendo um móbil, uma peça com grande mobilidade, se foi degradando, com as dezenas de portas a caírem com o vento. Então o que fizeram os serviços da câmara? Não sei com que orientações, que não foram do artista (que já se manifestou muito desiludido com toda esta situação), decidiram fixar as portas. A escultura deixou de ser um móbil para ser uma estrutura fixa e rígida... E isto é extraordinário, alterou-se uma obra de arte desta forma. Eu terei de ser, por razões de ética e de filosofia, um defensor do objecto de arte contemporânea. Primeiro não se cumpre um acordo, depois altera-se uma obra de arte que é, que deveria ser, uma peça de referência na cidade, foi uma peça que representou Portugal na Bienal de Veneza de 2002 ou 2003. E isto demonstra exemplarmente aquilo que não deveria acontecer nas relações com a autarquia.
Isto significa que as questões não são apenas financeiras?
Não, não são. Paralelamente aos problemas de ordem financeira e logística, é fundamental, é urgente resolver este tipo de questões. Porque estamos todos a perder. Mas quem está a perder fundamentalmente é a cidade. Que tem uma instituição que sempre foi da cidade, mas que, a continuar assim, com este tipo de tratamento, vai obrigar a que um dia, com toda a equipa, deixe a cidade.
Essa é uma hipótese que coloca?
Poderá ser. É que, repare, este edifício [do Pátio da Inquisição] já foi concebido para ser a sede dos Encontros de Fotografia, com o arquitecto que sempre trabalhou com os Encontros de Fotografia, João Mendes Ribeiro... Mas o rejuvenescimento desta cidade, no qual eu me encontro com uma parte de responsabilidade, quanto mais não seja porque fui eu que lutei por este espaço, porque fui eu que convidei os arquitectos, porque fui eu que trabalhei com os presidentes de câmara e com os ministérios para que este equipamento fosse possível, já tinha acontecido com outros, muitos outros espaços na cidade, de que é igualmente um caso exemplar o Edifício das Caldeiras.
E o problema resolve-se com a saída do Centro de Artes Visuais de Coimbra?
Não, não de maneira nenhuma. Porque este é um património da cidade, é um património do país é verdade, mas é sobretudo um património da cidade. Por isso, não há dúvida nenhuma que temos de chegar a um compromisso, a um acordo para o qual não é preciso mundos e fundos. Esta não é uma instituição de fins lucrativos. Este equipamento e a instituição aqui sediada a única coisa que pode dar e deu até hoje à cidade não é experimental. Em dezenas de anos, tem dado prestígio, promoção, animação e uma grande dignidade naquilo que faz. Ainda agora, no Algarve...
Onde o CAV está [na Art Algarve 2009] com algumas instituições de topo na área das artes em Portugal?
Com as maiores e as melhores do país. Se não, vejamos: Serralves, Fundação Gulbenkian, BESArte (colecção de arte do Banco Espírito Santo), Fundação Berardo, Caixa Geral de Depósitos... Bom, a única instituição que foi convidada para mostrar a sua colecção e para produzir uma grande exposição neste projecto, goste-se ou não se goste, foi o Centro de Artes Visuais. E fê-lo com os maiores elogios, com um comissariado meu e do Miguel Amado, outro homem da cidade, que faz parte da estrutura desta casa, que é já uma equipa numerosa, que é uma família que tem trabalhado e que tem defendido a qualidade e o prestígio de uma instituição da cidade.
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