Fogos

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Atendendo ao período de férias não me queria alongar nesta minha conversa quinzenal convosco, mas não posso deixar de voltar a esse terrível flagelo que são os fogos, e que todos os anos me têm causado um sem número de questões que não consigo ver respondidas.Em primeiro lugar, penso que qualquer aproveitamento político relativo a este tipo de situações deve ser totalmente repudiado e considerado uma ofensa para todos aqueles que vêm sofrendo, alguns com a própria vida, o horror desta situação.
Muito antes dos fogos se iniciarem dizia que este ano iria ser o Algarve a região mais atingida. Continuo a acreditar que estas situações se devem a grupos mais ou menos organizados com fins “terroristas” para satisfação de outros, que provavelmente só têm a ganhar com este tipo de situações.
Não consigo compreender como, numa estrutura que me pareceu ter levado uma remodelação total – a Proteção Civil – após os incêndios do ano passado em Pedrógão e aqui na nossa região das Beiras, reaja de forma que me parece no mínimo “tímida” quando, logo a partir de quinta-feira à tarde, não conseguiu perceber as dimensões que o fogo poderia vir a atingir em Monchique.
Com uma vaga de calor inacreditável, e ventos não tão fortes como o ano passado, mas com muito mais meios aéreos e terrestres à disposição, foram aparecendo sempre com um discurso otimista em cada dia que foi passando.
Como é possível que não tenha havido imediatamente uma colocação no terreno, e mesmo no terreno, e não nas estradas, de todo o pessoal disponível?
Em conversa com um bombeiro, explicava-me ele que nestas situações de muita gente envolvida se “perde” completamente a noção da tarefa que cada um tem que executar. E, a título de exemplo, dizia-me que em 2003 se tinham deslocado a Monchique, num carro de Bombeiros de uma corporação aqui da zona, demorando 11horas na viagem, despejaram 1 auto-tanque e vieram embora, dispensados, porque o fogo estava em vias de extinção. Como é possível?
Dizia na televisão alguém entendido na matéria, “mais homens e mais meios terrestes não são sinónimo de melhoria de combate ao fogo”.
Confesso a minha ignorância nessa matéria, mas entendo que, pequenas equipas altamente profissionalizadas executam seguramente o trabalho de dezenas e dezenas de homens, alguns deles com preparação inadequada.
Outra das questões que não consigo ver respondida, é as entrevistas que nos chegam de muitos moradores de casas e que referem não ter visto um único bombeiro, sendo eles muitas vezes os únicos responsáveis pela salvação das suas habitações.
Alguém me pode explicar, como é que havendo 1100 operacionais a combater o fogo, e 300 meios terrestes, não se arranjem grupos para ir defendendo sucessivamente cada casa isolada? Se os proprietários lá ficaram, que explicação pode haver para não estar ninguém para os ajudar?
Por último, e este será talvez aquilo que mais me impressiona, é a forma absolutamente chocante como as nossas televisões encaram este tipo de situações, explorando os sentimentos humanos até à exaustão e passando sistematicamente imagens aterradoras, transmitindo informações não oficiais e que a maioria das vezes não correspondem à realidade.
Dizia uma jornalista que era “dar voz aos que não têm voz”. Eles, neste tipo de situações, não estão seguramente interessados em ter voz, querendo apenas que os aconcheguem, os abracem e sejam solidários nas horas terríveis que atravessam.
Termino com esperança e o desejo de que o resto do Verão que vamos viver seja um tempo de acalmia, e que os envolvidos neste flagelo consigam livrar-nos desta tragédia nacional.
Que Deus nos ajude.

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