Opinião: Isabel, Infanta de Aragão & Rainha de Portugal

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Quando as fronteiras eram disputadas entre famílias e em campo aberto, a Rainha D. Isabel de Aragão, debilitada da peregrinação a Santiago de Compostela, seguiu por um rio de lágrimas até às fortalezas de Estremoz para acalmar dois poderosos monarcas consanguíneos, D. Afonso IV (seu filho) e D. Afonso XI de Castela (seu neto, filho de D. Constança), casado com D. Maria de Portugal (filha de D. Afonso IV).

Desaconselhada a fazer a viagem, entre viver e servir, optou pela dolorosa missão. Afadigada e doente, aos quatro dias de julho (quinta-feira) de 1336, encarregou a Mãe de Deus de receber a sua alma: “Maria, mater gratiae, / dulcis parens clementiae / tu nos ab hoste protege, / et mortis hora suscipe.” Junto do leito, estavam os netos, seu filho e sua nora, a rainha D. Beatriz. Logo que entrou no sono feliz dos justos, fez-se a sua vontade e foi trasladada, tendo chegado ao seu “Mostejro de Sancta Clara” no dia 11 de julho, faz hoje 682 anos.

Figura-chave do quadro político peninsular, levou a paz a D. Dinis e ao insubordinado infante D. Afonso, aos reis de Castela e de Aragão, a D. Afonso Sanches e a D. Afonso IV. Dos muitos gestos de apaziguamento, um está perpetuado no Padrão do Campo Pequeno. Desprovido dos ornamentos originais, chegou-nos com uma singela inscrição comemorativa das negociações que evitaram a batalha de Alvalade entre D. Dinis e seu filho, o príncipe D. Afonso.

A ligação de Elisabet d’Aragó a Portugal começa na Corte dos reis de Aragão, em Barcelona, com o casamento por procuração. A bênção nupcial foi celebrada na presença da nobreza e da corte, em Trancoso. Fixa-se em Coimbra, no palácio da Alcáçova e, com a morte de D. Dinis, muda-se para o paço que mandara construir junto à igreja de Santa Clara.

O rio Munda de águas indomáveis, tanto enriquecia os campos de cultivo contíguos ao Mosteiro, como inundava os aposentos da comunidade de Clarissas. A má arquitetura da ponte que unia as margens acelerou a sorte de todo o vale. Transformada em dique, reteve os inertes arrastados pelo rio e afundou o mosteiro. Um novo complexo conventual e uma igreja monástica seiscentista foram então erguidos umas dezenas de metros acima, no monte de Nossa Senhora da Esperança.

Dali se observava o “oásis maravilhoso do desterro deste mundo”. Dez anos depois da morte da última clarissa, a Rainha D. Amélia atribui a guarda do túmulo às Ir. de S. José de Cluny, até que o fervor republicano determina a sua expulsão. (“Sim, nós saímos, mas… voltaremos!”, responde a Ir. Inês de Santa Maria a Afonso Costa). Temendo pela sorte do túmulo, um movimento popular obriga a que este seja entregue à Irmandade da Rainha Santa e assim chega aos nossos dias.

Pouco acrescentei com este breviário. Talvez não saibam que o túmulo de prata, pago pelo povo de Coimbra, esteve escondido da falta de respeito dos soldados de Massena pelos nossos tesouros. No decorrer da “Guerra Peninsular”, a preciosidade chegou a permanecer entaipada, paredes meias com a grande sala do refeitório. Os franceses ali aquartelados estiveram a poucos centímetros do desejado túmulo isabelino, onde repousa a “filha de um rei em quem estavam unidos os brasões de todos os reis da Europa, Pedro II de Aragão; mulher de um rei que foi árbitro dos reis em todos os pleitos que tiveram em seu tempo as coroas de Espanha, Dionísio de Portugal; mãe de um rei, Afonso IV, de quem descendem todos os monarcas e príncipes da Cristandade, não vivendo hoje nenhum, que o melhor sangue que tem nas veias não seja de Isabel” (Sermão da Rainha Santa Isabel, Padre António Vieira).

A seguir ao Terramoto de 1755, a Vereação elegeu também a Rainha Santa como protetora da cidade e, dois anos depois, o Secretário de Estado autorizou a Câmara a INCORPORAR-SE nas festividades em honra da padroeira. É curioso que tenham sido os republicanos, uma semana após a revolução de 1910, através do feriado municipal, a perpetuar a memória da Rainha que foi coroada duas vezes.

Ao relacionar estes acontecimentos com as festas da cidade, porque desacertam com o nome da festa (“Coimbra Festas da Cidade e da Rainha Santa Isabel”, 2018; “Coimbra Festas da Cidade”, 2017; “Festas da Cidade de Coimbra e da Rainha Santa”, 2016; “Festas da Cidade de Coimbra”, 2015…)? Porque arredam a padroeira do cartaz das festas? Por último, porque se despreza uma figura cujo carisma é a Paz e a Concórdia em vez de aproveitar tudo o que nos chega do passado e tanta aplicação continua a ter nos nossos dias?

Numa contrapartida bem controversa assiste-se ao nascimento de um novo símbolo da cidade, a partir de uma das inúmeras fábulas construídas em redor do brasão da cidade. Para o caso, valeu a figura fantasmática da princesa Cindasundam, de Fr. Bernardo de Brito, acusado pelos pares de “impostor e forjador de mentiras”. O desacerto não prevalecerá! Se nem as areias do Mondego conseguiram soterrar a Rainha Santa ainda menos conseguirão os mortais. De nada vale tentar deturpar ou diminuir a imagem da pacificadora, que, de olhos no céu, sobre o Cálice (sangue) pediu por tréguas (“por jujz, e não por armas”) entre o Leão (de Castela) e o Dragão (de Portugal).

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