Opinião – Crianças especiais

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Um espaço exíguo, um lugar quente e húmido, uma incrível escuridão e água que tacteamos. A claustrofobia coloca como todas as fobias algumas dúvidas: será inata a todos os seres humanos? Porque se manifesta em alguns de modo aparatoso? Como surge o pânico? A lição das últimas semanas está no controle da mente sobre as emoções conseguida por doze crianças e um adulto jovem.

A experiência de nove dias no escuro, com fome, com medo do devir, adormecendo num espaço exíguo é uma sensação que me desperta durante a noite. Não estou lá e sinto medo. Sinto, sem vergonha alguma, medo de todos os espaços fechados onde não me possa esticar no chão. Eles ficaram num lugar aparentemente incómodo, aguardando.

Não acredito que nenhum tenha chorado, não acredito que não houvesse medo. Meninos entre onze e vinte e cinco anos permaneceram lúcidos, sem histeria, sem gritos, preparando-se onze dias para a aventura da fuga, depois de nove nas trevas. A ideia de que foram capazes de se desligar – fascina. Não sei se acredito nisso.

Percorreram também de modo exemplar a experiência da saída da caverna sem causar embaraço ou dificuldade a quem os salvava. Este é o cenário inverso dos adultos histéricos, aos urros, ululando para as câmaras de televisão, das pessoas que aguardam na sala de espera da loja do cidadão.

Esperar é coisa que criança portuguesa não sabe fazer. Alguns bufam, sopram, questionam gente muito mais velha sobre os poucos minutos que esperam para aquilo que têm de graça: saúde, educação, transportes. Somos uma população cheia de sorte por ter tudo isso e confortos evidentes se comparados com as Filipinas, ou o Brasil, ou a Venezuela. O português zune o sistema, desacredita das benesses, berra com os funcionários menores e vota nos responsáveis de sempre. A chefia é por natureza quem deve coordenar, interpretar o futuro, fazer as escolhas correctas, construir planos e suas alternativas, escolher o caminho mais adequado e arrecadar responsabilidade se falhar.

Num cenário português o mergulhador chegava ao terceiro dia e um gritava que queria comer, outro perguntava porque tinham chegado tão tarde, outro exigia recursos e se possível casas de banho, sempre com as televisões a entrevistar mães exaltadas distribuindo acusações a tudo e todos e claro promessas jurídicas e vis ao jovem treinador.

Tudo em directo nos canais sensacionalistas, cheios de especialistas e autores de manuais de como ser rico, ou inteligente, ou liderar.

Psicólogos a interpretar o budismo o mindfulness e claro, todos a zurzir no comando de bombeiros, na falta de meios, na ministra da administração interna e no presidente de câmara da região. Não digo que não fossemos capaz de realizar o mesmo salvamento e ter o mesmo sucesso, mas era num lamaçal de impropérios e lavagem de roupa suja que tornava límpida a água da gruta.

O budismo lá diz “é mister que o sofrimento vem do desejo” e se reduzirmos o desejo podemos chegar a uma libertação completa do sofrimento.

Eu fico suspenso do que se passou naqueles nove dias na caverna e adorava que esse testemunho nos pudesse chegar um dia. Lerei carregado do histérico pânico que me invade nos lugares mínimos sem saídas.

Diogo Cabrita escreve ao sábado, semanalmente

One Comment

  1. João Nogueira says:

    Artigo muito bem elaborado ,como todos os outros,mas cheio de verdades no que seria se tivesse acontecido cá.Um grande abraço DrºCabrita.Nogueira

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