“Não tinha dúvidas que a cirurgia cardíaca de Coimbra seria das melhores”

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Manuel Antunes

DIÁRIO AS BEIRAS – O Serviço Nacional de Saúde (SNS) pode ser eficiente?
MANUEL ANTUNES – Pode ser, mas não é. Não é porque os modelos de gestão utilizados são altamente ineficientes. Encontra-se gestão ineficiente nos vários níveis: de quem está à frente do Ministério da Saúde, nos serviços do ministério, nas Administrações Regionais de Saúde, nas direções dos conselhos de administração dos hospitais e nos serviços. E todos os níveis são importantes, sobretudo os serviços. O conselho de administração deste hospital, por exemplo, não pode saber o que se passa no dia-a-dia de um serviço, se os profissionais estiveram a produzir ou não. Quem tem a capacidade de ver isso são as chefias dos serviços, nomeadamente o diretor de serviço e os enfermeiros-chefes.

Entende que o SNS poderia ser eficiente, com uma melhor organização e gestão dos recursos?
Não há razão para não ser. É preciso que as nomeações para os cargos de responsabilidade sejam feitas de modo a que a esses responsáveis sejam atribuídas e pedidas responsabilidades. O problema é que estas legislações depois não são realmente postas em prática.

Mas este Centro de Cirurgia Cardiotorácica (CCC), a funcionar como Centro de Responsabilidade Integrada (CRI), provou que o SNS pode ter serviços sustentáveis?
Provou que este modelo é exequível, tem virtualidades, funciona, e seria um bom exemplo para outros seguirem, porque somos verdadeiramente ainda o único Centro de Responsabilidade Integrada. Muitas das coisas que fazemos, como os métodos de gestão ou a distribuição de incentivos, são invenções nossas, que até podem estar um pouco desviadas, a necessitar de correção, mas, nestes 20 anos – o CCC vai fazer 20 anos em dezembro – fizemos este caminho sozinhos.

Porque não surgiram outros serviços com organização semelhante?
Era fundamental que estes modelos se disseminassem, criando-se condições verdadeiras para isso. Talvez não haja mais porque, como disse um ministro da Saúde, este sistema é muito caro. Pois é, este é o mais caro dos serviços de congénitos do país porque é o que produz mais; se operamos mais doentes que os outros naturalmente fica mais caro que os outros. Uma auditoria do Tribunal de Contas a estes serviços concluiu que o número de doentes operados por médico neste serviço é muito maior que nos outros, e também mostrou que o custo por intervenção neste serviço é um quarto inferior ao do seguinte e que havia um serviço onde o custo é o dobro do nosso..

Tem faltado vontade política ou dinheiro?
No nosso país há uma coisa que é clara, não há dinheiro. Somos um país de recursos limitados, dos mais pobres no contexto da União Europeia. A inflação com a saúde, nas últimas duas décadas, aumentou a uma média de 6% por ano, três vezes mais que a inflação média, que terá andado pelos 2%. Se o problema agora já é mau, com estas curvas a divergirem daqui a 20 anos será absolutamente insustentável. Por isso eu tenho muito receio quanto à sustentabilidade do SNS, tal como existe neste momento. Há uns anos o Tribunal de Contas fez outra auditoria aos hospitais e concluiu que havia um desperdício de 25%, aliás, número igual àquele que eu tinha citado de cor no meu livro A Doença da Saúde, que publiquei há 18 anos. Se nós recuperássemos esse desperdício de 25%, isto é, se fizéssemos 25% mais do que fazemos atualmente com os meios que temos – o que não é possível porque o desperdício nunca é totalmente eliminável – não estávamos mal, mas mesmo assim a longo prazo teríamos problemas.

Deve haver uma reforma do SNS?
O SNS, tal como ele existe hoje, tendo como base princípios como a universalidade e a gratuitidade, é muito bom, mas era preciso haver dinheiro para o pagar, que não existe. Fazer a sua reforma implica mexer na Constituição. Mas o que está no calendário político é exatamente o contrário, fala-se de eliminar as taxas moderadoras. É certo que as taxas moderadoras também não tinham um impacto muito grande no financiamento do SNS, até porque dois terços da população estão isentos, mas eram um sinal. A maior parte da nossa população não faz a mínima ideia dos custos da saúde. O nosso hospital, por exemplo, tem um ou dois doentes que custam mais de um milhão de euros por ano em medicamentos.

Continua a defender a ideia do copagamento da saúde?
A sociedade tem obrigação de dar gratuitamente cuidados de saúde aos dois milhões de pobres que existem em Portugal. Mas as outras pessoas podem contribuir e de facto é preciso encontrar um modo alternativo de financiamento do SNS.

Leia a entrevista completa na edição impressa de hoje

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