Opinião: De vespa na Índia

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Não era a sua primeira viagem à Índia. Já lá tinha estado por diversas vezes. O facto de ter família em Goa também contribuíra para esta paixão por um país que parece um continente. Do norte ao sul, já estava relativamente familiarizado com a Índia e com os indianos.
Este imenso país é a maior democracia do mundo, sendo habitado por mais de mil e trezentos milhões de pessoas. Para quem vai de um pequeno país, escassamente povoado por cerca de dez milhões de cidadãos, a comparação deverá ser esmagadora.
A própria Índia também é muito diversa, quer em termos geográficos quer nas estratificações sociais.
Desta vez, a viagem pela Índia seria diferente. A ideia era comprar uma moto, uma vespa usada e percorrer cinco mil quilómetros, de preferência por telúricas estradas secundárias, à descoberta do quotidiano das populações, sem esquecer as chamuças nos pequenos restaurantes à beira da estrada, nem as massagens capilares nos barbeiros dos pequenos lugares. Uma vespa indiana, azul, por duzentos euros.
Jorge Vassallo assim planeou e do mesmo modo executou, tendo o amigo Luís por companheiro. Assim, em 2016, ambos percorreram milhares de quilómetros, cada um na sua vespa, por estradas nunca dantes navegadas. Jorge e Luís, dois portugueses aventureiros, sempre acompanhados pela sombra de dois vultos, Vasco da Gama e Cristiano Ronaldo, que todos pareciam conhecer e que era sempre tema de conversa com os autóctones.
Porque não viajas numa mota a sério? Esta foi a pergunta que os indianos mais vezes colocaram aos dois intrépidos portugueses. Ninguém entendia porque viajavam de vespa. Logo a seguir eram bombardeados com uma quantidade imensa de questões, tal era a curiosidade que suscitavam, nas terras por onde iam parando.
Ao longo dos meses assistiram a casamentos, cerimónias religiosas, comícios políticos, festivais religiosos com elefantes, visitaram plantações de ananás e tiraram milhares de selfies, pois eram constantes as solicitações dos indianos. Todos queriam uma selfie com o Jorge, o Luís e as duas vespas.
Where are you from? Era uma pergunta que ouviam todos os dias e muitas vezes. Pelo caminho avistavam também igrejas católicas, miúdos a jogar futebol com camisolas do Ronaldo, templos hindus, plantações de chá, estátuas dos deuses hindus Ganesh e Shiva, enquanto apreciavam uma bela ementa de arroz com caril de peixe e coco, em folha de bananeira.
Do estado de Kerala passaram para o estado de Tamil Nadu, agora já na companhia do Imodium.
A cidade de Pondichery, antiga colónia francesa, está situada na costa leste. Goa está na costa oeste. Jorge Vassallo escreve que Pondichery é uma espécie de Goa, mas francesa. Outras índias. O distrito de Goa, com capital em Pangim, foi uma colónia portuguesa durante cerca de 450 anos. Ainda hoje as influências lusas são notórias.
A gigantesca cidade de Mumbai ( 20 milhões de habitantes) situa-se, mais a norte, na costa oeste e até 1996 chamava-se Bombaim, antiga colónia inglesa. Por sinal, foram os portugueses que a ofereceram aos ingleses, em 1661, como parte do dote de Catarina de Bragança que ia casar com Carlos II, de Inglaterra.
“Tudo é possível-De Vespa na Índia”, publicado em 2018, é um livro de viagens singular, no qual Jorge Vassallo relata várias experiências na Índia, incluindo até uma conversa noturna com as Hijras de Mumbai.

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