Opinião: Bem-me-gere, mal-me-gere, muito, pouco, nada

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Há muito que a palavra “gestão”, dita assim sem pano de fundo nem contexto, pertence ao grupo dos palavrões que não significam nadinha. Não há nada mais vago neste mundo dos mortais. Porque, como em todas as ações humanas, é possível gerir bem e gerir mal. E dentro do bem-gerir é possível gerir a favor destes e contra aqueles, e vice-versa, sendo que uma “boa” gestão pode estar na base da maior das injustiças. Gestão não é religião nem o seu contrário – é apenas uma ferramenta ao serviço de um pensamento, de um objetivo, de um programa de realizações que pode ser bom ou pode ser mau. Na origem de todas as coisas, gerir é assunto da própria Natureza, traduzido na sucessão dos dias e das noites, das estações dos anos, das marés, concretizado entre o pólen e o fruto.
Gerir bem, para os que pensam como eu, não pode ser gerir para o lucro de que alguém se vai apropriar. Aliás, essa é a principal razão pela qual, nestes últimos duzentos anos de gestão da Terra para o lucro acelerado, quase que demos cabo deste planeta (e persistimos na senda, aliás).
Gerir bem, neste mundo de tanta gente, é educar os que querem e precisam de saber, alimentar os com fome, dar teto aos que têm de morar algures, tratar os doentes, iluminar os curiosos, ouvir os criadores. Já gerir mal é organizar a favor do desequilíbrio, desviar do trabalho para a especulação, converter o que é de todos no que é para apenas uns. Por isso é que a privatização dos CTT levantou a indignação que levantou: estava à vista que a gestão da coisa pública seria convertida em gestão para o lucro, nem que tal significasse (e significou) transformar um serviço de comunicação entre humanos, e suas organizações, num banco privado – dos lugares de gestão o que está mais próximo dos planos dos Irmãos Metralha (mas disfarçados da mais diáfana das boas intenções). Na mesma linha de preocupações vimos o governo nomear Paulo Macedo para a administração da Caixa Geral de Depósitos numa altura em que era preciso dar aos “investidores” um sinal apaziguador. “Investidores”, que é outro palavrão que não quer dizer nada, entidades sem rosto que, neste caso, emparelham com os “mercados” para nos fazerem um medo terrível! Tanto, que os governos têm por eles o respeito que as crianças devem guardar ao conhecido Papão. Como se o único investimento que vale não seja o da força de trabalho, capaz de transformar o nada em tantas coisas.
De um lado e do outro – dos CTT e da CGD – a grande novidade gestionária é a eliminação dos serviços que vêm sendo disponibilizados, num tempo comercial em que o cliente deixou de ter qualquer razão. Gestão assim não é novidade na História deste castigado país. Já Salazar se gabava dos cofres cheios de ouro – a tal formidável gestão – com tanta gente cheia de fome, de doença e falta de saber ler.
Nestes dias há quem tenha estado à porta de uma agência CGD, uma das que vão fechar. Haja quem perceba que os destinos de todos nós também são resultado da boa gestão das nossas vontades! Até que os “gestores” do desequilíbrio se tornem desnecessários.

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