Opinião – Apps e normas

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O tempo é dos criadores de padrões numéricos e do mundo das conclusões a partir dos dados registados.

Herdámos isto na saúde com a importação do ICD 9 e agora do ICD 10. São códigos onde números cristalizam gestos e outros números referem diagnósticos. Em breve é uma app de utilização amigável. Um doente tem vários códigos pois tem uma hérnia 550.90, mas tem também diabetes 249 e depois se é obeso 278 ou fumador V15.82. O procedimento é a correcção da hérnia com prótese 53.04. Este Médico é codificado com número mecanográfico, por exemplo o 1608 do CHC e está numerado na Ordem com o 31610/C. Podemos saber se o 1608 fez o procedimento 53.04 trinta vezes. Estes números estendem-se a múltiplos actos médicos e técnicos. Administrar soro é o Z99100, colocar oxigénio em máscara é Z99030. Ou seja, estamos no território da análise numérica da coisa mais emocional do mundo que é a doença. O percurso dos profissionais e dos doentes está completamente dependente destas numerações que vão gerar dinheiro pois a tradução deles é feita na plataforma onde somamos os consumíveis, os funcionários necessários, os tempos gastos e os actos realizados. Esta construção permite hoje ter registos informatizados de tudo. Claro que estamos a utilizar ferramentas obsoletas, computadores com doze anos, sem upgrades, sem updates, com andarilho e placas de dentes. Alguns levam pacemaker. Já tive um computador com prótese da anca e em rejeição.

Os custos da normalização em embalagens e datas de validade, e funcionários para verificar os números é cada vez maior. Infelizmente o mundo caminha em continuas demandas de exagero e depois rupturas. Corremos de modo acelerado e cego contra a parede que nós próprios erguemos de modo fanatizado. Há uma quebra na boa fé, na confiança e depois as regressões são abruptas, umas vezes porque não há capacidade financeira, outras porque esgotamos as pessoas com exigências. Eu já não codifico mais. O problema é que o país não produz computadores nem apps nem compra as manutenções. Entra na modernidade com aquele peito de toureiro e dois anos depois é um mendigo debaixo da ponte coberto por ferrugem informática.

A ideia das aplicações informáticas para todos os gestos é uma destas normalizações fanatizadas e que excitam por construir milionários em segundos. Criar uma aplicação que permita fazer análises e ecografias num telemóvel seria o consultório mínimo. Uma gota de sangue e dezenas de informações. Uma sonda conectada ao telefone e ali mesmo a ecografia. Depois inventarão a consulta online. Uma evolução estilizada dos chats porno com a cliente que se desnuda e o clínico que observa. Depois para dar forma científica codifica-se a coisa, numera-se, fazem-se questionários padrão e … zás. Acabam-se com as consultas presenciais. Hoje jogo no euromilhões em app. Pago à emel com app, vejo televisão com netflix em qualquer parte, ouço música sem comprar discos com o spotify, falo com amigos em apps sociais. Onde houver uma máquina, diz-me um amigo, exclui-se um contributo para a segurança social. O Correio agora vende livros e aplicações financeiras. A Fnac vai começar a vender electrodomésticos.

A substituição das pessoas por métodos repetíveis, verificáveis, sem surpresa terá a consequência da inadaptação ao desenrasque, à contingência, ao raro. Assim foi em Pedrogão com o siresp. Assim está a ser com mais 3000 mortes que o valor normal para a época. Assim será com a defesa dos animais e o aumento inevitável das doenças transmissíveis por eles.

 

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