Opinião – Ágora

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Coimbra merece ser Capital Europeia da Cultura. Se fosse simplesmente um prémio, o labor cultural das gerações passadas justificava-o plenamente. As dimensões múltiplas e justapostas da Coimbra romana e judia, da Coimbra de Santa Cruz e Universitária, da Coimbra de Camões, da Coimbra da Rainha Santa, de Santo António e de João XXI, da Coimbra de Clavius e Pedro Nunes, da Questão Coimbrã ou da Presença, da Coimbra doutora e futrica, da Coimbra património da Humanidade, não esgotam o passado fantástico e fecundo de uma região que fundou a língua portuguesa e alicerçou a portugalidade.

Mas, na essência, a Capital Europeia da Cultura não é um prémio ou louvor histórico. Nem se trata de uma decisão meramente política, económica ou demográfica da União Europeia, numa mostra saltitante da cultura local para auto-elogio ou simples festarola institucional. O historial longo de duas décadas desta iniciativa, numa Europa que é ainda um farol de ideias e valores do mundo desenvolvido, permitiu apurar o conceito complexo e exigente dessa capitalidade.

A Capital Europeia da Cultura é uma estratégia dos cidadãos (ou não é nada). Como bissectriz de múltiplas visões e expectativas de cada pessoa no seu território e circunstância, é a resultante útil das escolhas prioritárias que todos temos que fazer em nome do bem comum. Não se trata, portanto, das escolhas egoísticas e confortáveis de hoje mas de tudo o que queremos para amanhã, por mais desconfortável que nos pareça.

Um convite ao desconforto e desassossego é inevitável – que Coimbra queremos para a próxima geração? Que valores privilegiamos no mundo global em que nos inserimos? Que peso damos à educação e à cultura no nosso quotidiano? Que parcerias e partilhas desenvolvemos com outros países, entidades e pessoas na produção científica, económica e cultural? Que vida queremos viver em Coimbra depois de 2027?

Se juntarmos as ideias dos que cá estão às de tantos outros que de cá saíram ou passaram, faremos desta candidatura um livro aberto de esperança, com a exigência una de concretizar uma estratégia verdadeiramente cultural a partir de Coimbra – uma identidade europeia que valoriza o Homem, no seu potencial criativo e na sua comunidade de afectos e relações.

E chegarão as boas ideias para Coimbra ser, em 2027, Capital Europeia da Cultura? Não, não chegam. Coimbra tem que se transformar – passo a passo – na radicalidade do que deseja. Uma Ágora aberta aos outros, incorporando boas práticas internacionais na gestão cultural e com maior intercâmbio de pessoas e ideias. Uma Ágora participada, em que o poder é facilitador e não dirigente das forças da cidade e da região. Uma Ágora viva, na regeneração urbana e na valorização do centro histórico, na paisagem natural e construída, na fixação de empresas inovadoras, nas opções energéticas e de mobilidade, na prioridade à educação e fruição cultural.

Assim, sim, Coimbra merecerá ser a Capital Europeia da Cultura. Antes, durante e depois de 2027.

 

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