Opinião – Sem opinião pública? Temo que não seja possível

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Na quinta-feira passada encontrei um amigo de longa data, empresário de sucesso (que não vou nomear), num café. Falou-me do seu desalento por perceber que Coimbra está em queda livre, a uma distância das outras cidades que já não é possível de inverter (palavras dele), e do facto de se aperceber que a generalidade das pessoas não tem consciência da situação de calamidade que vivemos. Aqueles que entendem, dizia-me ele desanimado, têm uma vida boa e não estão para se chatear. “Eu, por exemplo, já nem vivo em Coimbra”, dizia-me triste. “Fui viver para Aveiro”. É esta a imagem real do concelho de Coimbra: sem indústria, sem economia, apática e sem estratégia.

Os poderes instalados, os partidos, as oposições, aqueles que diziam que tinham um plano e prometeram valorizar, mas só desvalorizam, aqueles que prometeram novas estratégias e se foram embora, esquecendo o compromisso com os eleitores, ou se limitam a dizer mal, ou aqueles que, apesar de todas as boas intenções não são capazes de uma alternativa credível, etc., continuam a sua vida, baseada essencialmente em fórmulas antigas e falhadas, como se o concelho não estivesse à deriva, sem rumo, sem esperança e sem futuro.

Em Coimbra dominam poderes estranhos que nos empurram para o abismo, apesar das imensas potencialidades aqui existentes. Mas o fator que mais me preocupa é o da total ausência de opinião pública. Em Coimbra nada se discute. Os poderes são tão absolutos que nunca são colocados em causa. Só assim se explica a total ausência de debate sobre o futuro, sobre os desafios que temos pela frente no médio e longo prazo, sobre a necessidade de organizar o concelho para os enfrentar, sobre a emergência de reunir competências transversais que, ultrapassando os aspetos ideológicos, sejam capazes de colocar em prática uma estratégia perene para o futuro e devolvam esperança ao concelho.

Como pode Coimbra imaginar que há futuro sem economia? Sem atividade económica? Sem empresas? Sem gerar emprego e oportunidades?
Como pode ignorar os gritos de desespero daqueles que, na baixa da cidade por exemplo, vão saindo, uns atrás dos outros, desiludidos com tudo, mas essencialmente com o total desinteresse do resto do concelho? Como podem ter ignorado, por exemplo, o alerta do Miguel Carvalho (em vários locais e em vários jornais nacionais) que, exausto, também saiu?
Como pode Coimbra pensar que a Universidade, ainda e sempre o seu mais forte valor, pode sobreviver, com a dimensão que tem, sem enfrentar o problema demográfico da região e a crónica dificuldade em fixar pessoas? Como vai a Universidade captar alunos fora da região e do país se o concelho não se preocupa com coisas básicas como mostrar que percebe o mundo, que percebe a urgente necessidade de investimento produtivo e, consequentemente, se preparou para o investimento, para atrair e para ser um sítio onde as pessoas querem estar? Como pode a Universidade ser motor de desenvolvimento, por muito bom que seja o seu ensino, a sua investigação e a capacidade do seu corpo docente, se há volta não há oportunidades de fixação, não há economia, as realizações culturais são pouco mais que sofríveis, não há emprego, nada está organizado para atrair, para fixar, para ser alternativa a tantos outros espaços no mundo?

Que argumentos apresenta o concelho de Coimbra para que muitos dos que aqui estudam e criam conhecimento ponderem fixar-se no concelho e aqui criarem oportunidades? Porque é que isso não é uma preocupação central dos poderes instalados no concelho? Que raio de lógica é esta que desmerece o que fazemos e as mais-valias que criamos?

Porque é que nada sobre o nosso futuro é debatido? Porque é que nenhum destes assuntos está no topo das preocupações da generalidade da população? Porque é que a comunicação social não fala destes assuntos? Porque não faz comparativos entre o concelho e outros, menos afortunados em potencialidades, mas que se organizaram e hoje estão muito à frente desta cidade velha, abandonada e falida?

Sim, preocupa-me muito a ausência de opinião pública. Sem ela, nada é possível. Como pode Coimbra, a cidade do conhecimento, pensar que a situação em que vive é aceitável? Inverter a situação? Sem opinião pública interventiva? Temo que não seja possível.

 

Norberto Pires escreve ao sábado, semanalmente

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