Opinião: Low cost

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“ – V. Ex ª tem boa memória, sr. Maia?
-Tenho uma razoável memória.
– Inapreciável bem de que goza!”
(Eça de Queiroz)

Para não ser acusado do crime de plágio, sinalizo o título do pedagógico artigo publicado neste jornal titulado “Low Cost” ( 14/05/2018 ), da autoria do médico Diogo Cabrita (mais adiante se verá o motivo de eu evocar a sua profissão), em que ele critica a escrita abreviada das mensagens enviadas por telemóvel pelos jovens da geração actual escravizados ao império das novas tecnologias de comunicação.
Por meu lado, temo (embora salvaguardado um possível e catastrófico exagero) que ao ser perguntado a jovens coisas comezinhas sermos surpreendidos pela resposta : “Um momento vou ver ao Google!” Havendo, como tal, necessidade de lhes implantar no cérebro unidades centrais de processamento que preencham o vazio dos respectivos crânios. A época dos “cyborgs”, mesmo que escondida atrás da porta, deve andar a espreitar a decadência do Saber actual responsável pelo alarme que o prestigiado académico da Universidade de Coimbra, Aníbal Pinto de Castro, já falecido, lançou, em 2005: “Não destruam. Não cedam. Não tenham medo porque a Universidade não pode ser uma instituição de caridade. Para isso há os asilos e a Mitra. Não pode ser um hospital de alienados”.
Num tempo em que esforçados estudiosos do “Mecanismo da Mente”, tomando de empréstimo o título de uma obra de Colin Blakemore, valorizam o papel da memória (de triste memória por causa de marrões que decoravam páginas inteiras de manuais escolares sem as entenderem), registada em engramas do córtex cerebral, as Belas-Letras encontram na profissão médica terreno úbere de gente que escreve artigos de opinião de forma que sai da vulgaridade, talvez, por lidarem com o sofrimento humano em que “a doença amplia as dimensões internas do homem” (Charles Lamb).
Falando de escritores médicos. Para além de António Lobo Antunes, que abandonou a profissão de médico, sendo hoje romancista laureado com valiosos prémios literários, ocorrem-me à memória os nomes de Júlio Dinis, Fernando Namora, Abel Salazar (figura multifacetada de outras artes: pintura e escultura) e Miguel Torga, colho exemplo diferenciado em João Lobo Antunes, professor catedrático de Neurologia, falecido em 2016, diletante com crónicas reunidas em livros em que em belíssimas páginas redigidas com humanismo, elegância e fino recorte literário perpassam a sua vivência profissional da doença e da finitude da vida humana. Por esse facto, dele me tornei leitor, quase diria, compulsivo.
A arte, ou simples exigência em bem escrever, embora dependente da influência dos genes (os irmãos António, João e Nuno Lobo Antunes, disso são exemplo) passa, indubitavelmente, pelo gosto da leitura de grandes obras literárias, não lidas, ”en passant”, em resumos para desenrascar provas de avaliação com prosa espartilhada entre linhas previamente definidas Isto já para não falar de questões respondidas com cruzes, em idos de 52 do século passado, que julgo cunhadas de novidade em Portugal, durante a minha frequência do Curso de Oficiais Milicianos da Arma de Infantaria . Cruzes que hoje, no meio escolar do básico ao universitário, servem para ocultar o cemitério da santa ignorância lançando o rabo do olho ao teste do colega do lado, ou em copianço com sinaléctica de dedos previamente combinada.
Para além da mudança dos tempos e das vontades, como sentenciou Camões, enraízam-se hoje hábitos na juventude escolar nem sempre pelas melhores razões. Por vezes, até, pelas piores razões!

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