Opinião: É possível a Psiquiatria continuar a ser o parente pobre da Medicina?

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Segundo a Associação Mundial de Psiquiatria, o estigma de doença mental cria um ciclo vicioso de exclusão social e discriminação, constituindo uma enorme barreira para a qualidade de vida das pessoas com doença mental e dos seus familiares, por vezes até mais importante do que a própria doença.
As orientações da OMS, que se encontram incorporados nas bases de desenvolvimento do Plano Nacional de Saúde Mental ( 2013-2020 ), procuram contrariar a manutenção desse estigma, com a integração dos serviços de Psiquiatria nas unidades hospitalares e o desenvolvimento das unidades de saúde mental comunitárias.
Se estas últimas foram sendo constituídas na área de Coimbra (unidades ainda em fase de desenvolvimento), com equipas deficitárias de profissionais que possam desenvolver um trabalho não só de intervenção, mas de prevenção, mormente as recaídas – tendo mostrado a sua importância na resposta à grave crise provocada pelos incêndios, necessitando para o efeito de um reforço de técnicos, que deixaram de fazer a sua actividade habitual em prol de uma necessidade premente.
No âmbito assistencial, como parcialmente responsável na resposta, não posso deixar de referir o reduzido investimento que é feito na Psiquiatria em Coimbra e para isso bastará visitar as instalações para se concluir que não reúnem as condições técnicas e de conforto exigíveis para instalações hospitalares segundo as normas emanadas pela governação, com excepção das instaladas no Bloco Central.
Se ainda há poucos anos atrás, o Conselho de Administração de então nos sinalizava que se iria proceder a modificações e obras que fizessem, com as quais concordava, e transitar a enfermaria feminina para o Bloco Central, e o Hospital de Dia para o Bloco de Celas, onde fariam obras num pavilhão que integraria não só esta unidade, mas também as Consultas Externas de Psiquiatria, que continuam a ser realizadas em três polos diferentes, dificultando muito a sua governabilidade e orientação para os utentes.
Será que se pretende tratar a Psiquiatria como o parente pobre da Medicina?
Nos últimos anos temos vindo a verificar que os utentes internados nas enfermarias de psiquiatria são mais velhos e com múltiplas doenças e grandes complicações que necessitam de cuidados médicos diferenciados, facto que a retirada das enfermarias de psiquiatria do bloco central, poderão vir a prejudicar, facto que é por nós sentido no apoio nas unidades externas, como já referido.
Esperamos que na planificação de melhoria do Serviço de Psiquiatria se acautelem boas condições físicas e de recursos profissionais, na resposta global à necessidade dos doentes com patologia psiquiátrica, não descurando a necessidade de um adequado enquadramento nas instalações do Bloco Central que permitam a resolução das situações agudas e complicações médicas que hoje em dia muitos destes doentes apresentam.
Noutros países as modificações operadas nas reformas de saúde mental conduziram a redução dos custos (tal como em Portugal), que numa parcela significativa de poupança foram investidos para uma melhoria da saúde mental. Quando será feito o mesmo em Portugal/Coimbra?
Fala-se muito na Maternidade como um importante investimento na área da saúde,a que não tenho qualquer objecção, entendendo a necessidade de melhorar as condições assistenciais das parturientes e das crianças.
Não seria importante que essa iniciativa se enquadrasse num amplo investimento na área da saúde, como resposta global para os problemas existentes na saúde?
Não seria a oportunidade para melhorar os cuidados e criar uma Psiquiatria mais robusta para fazer face aos desafios no sec. XXI?
E sobre as pessoas mais velhas? Já existe alguma preocupação de encontrar respostas integradas e personalizadas de saúde (onde também deve estar integrada a psiquiatria) para este grupo etário que cada vez é maior? Essa sim uma prioridade que continua esquecida!

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