Opinião – Bairro de Celas Novo

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O bairro de Celas em Coimbra está a sofrer uma intervenção arrasadora, está a dignificar o espaço e a soterrar a bidonville do passado. Aquilo que foi um refúgio de pessoas pobres, retiradas à alta, está nestes últimos dias com a pujança israelita de arrasar casa a casa e converter o imobiliário com uma beleza inovadora. Sobem alguns telhados, o branco impera, vão chegar novas pessoas que alguém escolherá.

Claro que a política de guetos só se inverte mudando a missão destes bairros, apoiando pessoas das artes em dificuldades, apoiando as mães solteiras, trazendo mais do que problemas sociais antigos ao espaço de sempre. O bairro de Celas com um restaurante no meio, ou com uma ou duas associações culturais com sede no lugar, conheceria outro destino. O gueto é sempre um mau princípio e a população que faz as festas e utiliza de modo aberto o clube e o campo agradecerá a multiplicação das presenças.

O bairro de Celas está a ficar um lugar lindo. Há que vigiar aqueles que o vão usufruir, que receberão estes apoios, exigindo-lhes o respeito pela dádiva, o apreço pelo direito a viver num espaço digno que outros apoiam com seus impostos permitindo estas facilidades. A preservação do que é colectivo e dos benefícios tem de ser uma exigência. Permitir novos telhados de zinco, novos moradores que infernizem a vizinhança, deve ser controlado por quem oferece. A vida tem de ser “dar e receber e respeitar”.

Coimbra de apoios sociais tem de se fazer também com a regulação do usufrutuário que não tem só direitos. Há quem julgue que ser pobre não tem deveres e permite todas as exigências. Há quem tenha casa a sete euros por mês e não arranja a janela que partiu por acidente. Os bairros sociais como o de Celas são um espaço maravilhoso para quem lá vive. Conheci muitos moradores que já faleceram, reconheço alguns filhos deles, trabalhei com outros. Lembro famílias enormes que tiveram sucesso. Recordo famílias de profunda tristeza.

Agora virão novos. Há quem decida sobre a entrega destes benefícios. Há quem ouse fazer política e comprar votos com este exercício público. Aqui nascem os primeiros sintomas do uso do poder: seleccionar os que receberão benefícios, vigiar ou omitir os deveres.

 

Diogo Cabrita escreve ao sábado, semanalmente

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