Opinião: A Ordem do Dia

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A fotografia de Gustav Krupp von Bohlen und Halbach ocupa integralmente toda a primeira página do último livro de Éric Vuillard, publicado em França em 2017 e em Portugal em 2018. Trata-se de uma imponente fotografia a preto e branco, de corpo inteiro, que retrata de forma magnífica um dos grandes industriais da economia alemã.

Aliás, a marca Krupp é bem conhecida dos portugueses assim como a magnificência da economia alemã.

Quanto a Éric Vuillard é um escritor e cineasta francês, nascido em 1968, na cidade de Lyon, com inúmeros livros publicados, tendo a particularidade de quase todos terem sido premiados. Este seu último livro intitula-se “L’Ordre du Jour”, e ganhou o “Prix Goncourt 2017”, ou seja, foi considerado o melhor livro, de língua francesa, publicado em França, em 2017.

A história relatada neste livro, inicia-se no dia 20 de fevereiro de 1933, dia em que, na Alemanha, se efetuou uma importante reunião, na qual estiveram presentes 24 grandes industriais e financeiros alemães. Gustav Krupp von Bohlen und Halbach era, sem dúvida alguma, um venerável personagem, no entanto, não seria o único. Os donos e principais responsáveis de empresas germânicas de sucesso como a BASF, a Bayer, a Agfa, Opel, IG Farben, Siemens, Allianz, Telefunken e outras, estavam igualmente presentes, ou seja, a elite da finança alemã.

A reunião efetuou-se no palácio do presidente do parlamento alemão, o Reichstag. Confortavelmente sentados, aguardavam pela chegada dos responsáveis e pelo início da reunião. Éric Vuillard escreve que pareciam 24 máquinas de calcular, expectantes, à entrada do inferno.

De súbito, abrem-se as portas e entra o presidente do parlamento, Herman Goering. Políticos e industriais convivem tranquilamente. As eleições realizar-se-iam no dia 5 de março de 1933 e o partido nazi pretendia vencê-las. Se conseguisse alcançar tal desiderato, nos dez anos seguintes não se realizariam mais eleições, ou, talvez nos próximos cem anos, afirmava Goering, rindo-se da sua piada, divertido e ameaçador.

Rapidamente, todos os 24 contribuíram, cada um, com centenas de milhares de marcos ou, nalguns casos, um milhão de marcos. O partido nazi acabara de obter um substancial reforço financeiro, destinado à sua campanha eleitoral de intimidação e perseguição. A nova ordem mundial dera um importante passo em frente.

Pouco depois, entrará na sala o Chanceler alemão, confiante e sorridente, um austríaco de seu nome Adolfo Hitler, com palavras de agradecimento e um aperto de mão, individual e vigoroso. Segundo ele, era preciso acabar com um regime fraco, acabar com a ameaça comunista e suprimir os sindicatos. Durante meia hora, os 24 escutaram atentamente o Führer. No final, Gustav Krupp von Bohlen und Halbach, cujo donativo ascendera a um milhão, levantou-se, deu um passo em frente e, em nome de todos, agradeceu a Hitler a sua amabilidade em lhes ter clarificado a situação política. O Führer retirou-se e Herman Goering continuou a fazer as honras da casa.

Após as eleições de 1933, a História seguiu o rumo que se conhece, até 1945. Neste ano, no tribunal de Nuremberg, Goering também se riu, mas menos. Ao contrário do elegante Joachim von Ribbentrop que não estava com vontade nenhuma de rir. Em 1945, a ordem do dia era diferente da ordem do dia em 1933. O Zeitgeist mudara. O livro de Éric Vuillard é brilhante. Imperdível.

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