Lula na Ópera

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Alguns dos grandes amigos que fiz no Brasil ficaram atónitos quando Lula venceu a presidência daquele país. Estávamos em 2003 e eu trabalhava numa reportagem, acompanhando em Minas Gerais o Movimento dos Sem Terra. “Uma Terra para Rita”, era o título que marcava o desfecho da minha temporada antes de partir para o Rio de Janeiro. Rita tinha uma trança enorme, braços grossos e olhar largo. O seu quase analfabetismo desentranhava-se da amargura conformada.
Lula, que já havia perdido anteriormente três eleições presidenciais, era receado pela ideia de uma indulgente proteção aos “sem-lei”, temendo-se que retirasse aos patrões para dar aos que nada tinham. Este era, tem sido, o mito do papão que se adensa contra as esquerdas. Mas Lula, o ex-sindicalista do PT, vinha com a promessa de um Brasil que havia de erguer-se da pobreza. O ex-metalúrgico governou durante oito anos. A economia cresceu, o que possibilitou colocar em marcha programas sociais que permitiram a saída de milhões de brasileiros do limiar da pobreza. Em si mesma, esta é uma história. Mas há outra para além desta. Que vem de há muito.
Um enorme novelo de corrupção e de lavagem de dinheiro, envolvendo grandes empresas, partidos e agentes políticos colocou na mira da Justiça nomes que antes não eram apanhados pelo radar. O mecanismo foi ao longo de muitas décadas cerceando a democracia, financiando eleições, manipulando-as, enriquecendo políticos e distribuindo lucros. Não há aqui direita nem esquerda. A corrupção apodrece todos os partidos. A Operação Lava-Jato ocorreu muito antes de Lula chegar ao poder…
Preso a 07 de abril de 2018, o ex-presidente já havia sido condenado pelo juiz Sérgio Moro em junho de 2017 a nove anos de prisão por corrupção passiva e branqueamento de capitais, num processo em que foi considerado culpado de receber da construtora OAS a diferença do preço de um apartamento simples para um triplex de luxo. Após recurso, a pena foi ampliada para 12 anos e determinada a sua prisão imediata.
O juiz que acompanhou a investigação e que instruiu o processo foi o mesmo que proferiu a sentença. Foi o mesmo que promoveu a hiperbolização mediática. Foi o mesmo que premiou alguns agentes do crime como contrapartida pela delação e incriminação de outros alegados envolvidos – o que, perversamente, pode levar à acusação de inocentes por pura vingança.
Os opositores de Lula, procurando sustentar que o processo não é político, tentam ignorar o golpe perpetrado pelo Congresso que impossibilitou Dilma Roussef de continuar o seu mandato presidencial, por alegada irregularidade administrativa. A estratégia do impeachment surtiu um dos principais efeitos, que foi o de desimpedir um processo a Lula, que se encontrava nessa altura a desempenhar a função de ministro-chefe da Casa Civil e com isso a preparar a candidatura presidencial. Mesmo detido, Lula reúne a preferência nas intenções de voto, embora se encontre algemado à cadeira do juiz.
Aquilo que é conhecido não permite senão uma perceção controversa ligada às emoções e ao desejo das nossas filiações políticas. A sentença de Sérgio Moro pode ser consultada no site do New York Times. Pairam brumas de incerteza quanto ao triplex e à existência de corrupção. A defesa de Lula pede que seja apresentado um indício ou prova de que a OAS tenha alguma vez beneficiado de uma decisão tomada pelo antigo Presidente. Imperou a livre convicção do juiz. Uma coisa é certa: ao longo do processo, para manter a acusação, a Justiça foi alterando os argumentos, como na ópera Rigoletto: “La donna è mobile/qual piuma al vento/muta d’accento/e di pensiero”. Será uma tendência global dispensar provas para acusar? Podemos hoje, tal como no passado, ter medo da Justiça? Num jornal nacional um cronista escreveu que, só por existir, Lula já devia ir preso. Estamos conversados.

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