Opinião: Tentação

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As gastronomias locais traduzem um conjunto de legados históricos que permitem, por si só, a distinção e identificação dos territórios, e despertam interesse e entusiasmo nos consumidores e nos agentes de desenvolvimento, com muitos e bons exemplos de municípios que fazem um excelente trabalho na valorização e divulgação dos produtos locais. Neste campo, Portugal é uma verdadeira tentação e os nossos pratos, típicos e irrepetíveis noutros pontos do mundo, deixam uma saudade muito especial a quem os prova. Fica-se com água na boca só de pensar em Leitão à Bairrada, Cabrito Assado, Chanfana ou Lampreia.
Portugal é de facto um país com uma grande riqueza gastronómica, constituída por vários produtos endógenos, verdadeiros ex-libris das regiões de origem, contribuindo para o seu desenvolvimento económico, social e cultural. Ainda no final do ano passado, em Outubro, tive a oportunidade de visitar a Lousã durante o Festival Gastronómico de Sabores de Outono e comprovar que é na ligação ao território que se esconde o segredo da distinção de sabores, texturas e cheiros que determinam uma gastronomia de excelência.
Contribuindo para a fixação das populações e o não abandono dos campos, será por isso de promover a redescoberta de complementaridades entre produtores, alimentação e cultura, e a materialização da oferta ao consumidor final de produtos genuínos dos sistemas agrícolas. Se o sabor começa no solo, então os agricultores deverão considerar a gastronomia não só como um factor de valorização da sua produção, mas também como o veículo de promoção das especificidades locais e regionais de origem.
Ciente desta temática, a Comissão Europeia apresentou algumas propostas, entre as quais a criação de uma plataforma comum para pequenos produtores, que lhes dê a possibilidade de disponibilizar mais facilmente os seus produtos, assim como a implementação de uma logística de distribuição que não esmague as suas margens, ou ainda a promoção de visitas mútuas entre produtores, investigadores e chefs, para estabelecerem pontes e conhecerem melhor as respectivas realidades, de modo a conciliar e ultrapassar disparidades entre oferta e procura.
Enquanto isso não acontece, espero dentro de dias voltar à Lousã, pois amanhã lá começa o VII Festival Gastronómico da Chanfana, um prato que marca presença à mesa de toda uma região que o viu nascer e onde se cultivam os valores da hospitalidade, vizinhança, diálogo intercultural, criatividade, e permite reunir pessoas de todas as idades, condições e classes sociais. Ao redor de uma mesa, e já agora com tigelada de sobremesa.

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