Opinião: Doutoramentos nos Politécnicos: Uma realidade efetiva ou virtual?

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Desde 1982 tenho acompanhado a este “braço de ferro”, a guerra existente entre as Universidades e as instituições de ensino superior, não inseridas naquele sistema de ensino.
O primeiro grande embate foi logo após o 25 de abril. Nessa altura, após a derrota do feudo salazarento, os então Institutos Comerciais e Industriais lá conseguiram ver, por Decreto-lei, a sua merecida passagem a Institutos Superiores. Já nessa altura, e apesar do decreto-lei prever a possibilidade desses institutos conferirem o grau de bacharelato, licenciado e doutor (DL n° 830/74, 31 de dezembro, neste caso concreto para a criação do Instituto Superior de Engenharia de Coimbra), fecharam a cerca de tal forma, que estes Institutos se viram limitados a conferir apenas o grau de bacharel.
A luta continuou. Aqueles senhores, ainda com uma réstia de salazarice impregnada, iam resistindo. Protestos e mais greves, algumas nas quais participei, até que cedem mais uma vez, e lá atribuem aos Institutos Superiores, não a licenciatura, mas o chamado CESE (Curso de Estudos Superiores Especializados). Era uma licenciatura especializada, uma espécie de licenciatura do “Portugal dos Pequeninos”, porque a outra, a do “Portugal dos Grandes”, era para os senhores universitários. Estamos nesta fase nos anos 90. A luta continuou, reuniões e mais reuniões, e lá resolvem deixar conferir o grau de licenciado no Ensino Politécnico, terminando então o CESE.
Mas entretanto, nesta altura, as Universidades precisavam de aumentar o número de alunos de mestrado e de doutoramento, e onde é que podiam angariar clientes? Ironia do destino, ao elevado número de professores dos politécnicos, porque a maioria não tinha o doutoramento e alguns não tinham o mestrado. Claro, eles próprios não se aperceberam que iam dar “músculo académico” à concorrência, pois estavam seguros, porque confiavam cegamente no seu lobby.
Já com alguns professores mestres e uma percentagem razoável com o grau de doutor nos Politécnicos, depois de mais reuniões e muitos debates, lá deixaram que os politécnicos conferissem o grau de Mestre.
Claro que, desde então, houve muitos politécnicos que cresceram e ultrapassaram algumas Universidades. Então, e o resultado? Apesar da competência e, em alguns casos, dos meios adequados, estava vedada a possibilidade dos politécnicos conferirem o grau de doutor.
Entretanto a luta continuou. E lá veio um “presente envenenado”, e mais uma vez, os senhores universitários a imporem a regra: os politécnicos podiam participar em doutoramentos, mas quem conferia o grau eram as Universidades. Os Politécnicos trabalhavam, mas quem tinha o selo eram as Universidades, tipo “selo bestial”.
O tempo foi passando, mais carta para aqui, mais protesto para ali e a luta tem-se travado. Recentemente, até uma senhora politóloga, representante do feudo universitário, de nome Patrícia Calca, surge a escrever na imprensa contra os doutoramentos nos Politécnicos, sem saber do que está a falar, mostrando total desconhecimento sobre o assunto (“conheço os politécnicos através de amigos”, escreveu).
Finalmente fez-se luz. Os Politécnicos terão o caminho aberto para conferirem o grau de Doutor. Foi preciso a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) defender esta posição, no seu relatório de avaliação apresentado em Lisboa, para o Ministério vir a correr dizer que concorda. Os jornais já vendem a notícia. Até recordam que o senhor ministro recuou o ano passado, depois de dizer que sim, depressa apareceu a dizer que não. Não teve a coragem da OCDE, a coragem baseada na verdade e na justiça.
E agora? Vai exigir que os politécnicos tenham super laboratórios para impedir a possibilidade de conferirem doutoramentos, como aconteceu em 1975 com os Institutos Superiores? Vai criar um super hiper doutoramento nas Universidades, para manter a sobranceria universitária?
Na minha opinião, os Politécnicos poderem conferir doutoramentos, é uma questão de reconhecimento da sua evolução. Não significa que o façam, se não mostrarem capacidade para tal, mas o mesmo deve acontecer com as Universidades.
Ficamos a aguardar.

3 Comments

  1. António Monteiro says:

    A Salchicha Educativa
    Quiçá seja um novo termo, inspirado num Novo Banco, que era bom até que deixou de o ser, que traduz a oferta educativa do ensino superior público que também era boa até que o deixou de ser, por forma a compreender a oferta educativa constante do site da Direcção-Geral do Ensino Superior e a dele omissa…
    No que à oferta educativa omissa do site da DGES respeita, refiro-me aos Mestrados e aos Doutoramentos constantes da oferta educativa do ensino superior público, mas omissos da oferta educativa constante de site da DGES. Enfim, uma oferta educativa de Mestrados e Doutoramentos oficiosa…
    Refiro-me, por exemplo, ao Doutoramento em Ciências do Desporto da Escola Superior de Desporto de Rio Maior, do Instituto Politécnico de Santarém, em parceria com a Universidade da Madeira. http://www.esdrm.pt/Ensino/Doutoramento/CD/Index….
    E, aqui vos deixo um link em que se descreve o modus operandi do Doutoramento em Ciências do Desporto da Escola Superior de Desporto de Rio Maior, do Instituto Politécnico de Santarém, em parceria com a Universidade da Madeira. http://www.oribatejo.pt/esdrm-com-doutoramento-em
    Não obstante aos Politécnicos estar vedado ministrarem Doutoramentos. Aliás, este facto até serve de argumento ao Presidente do Instituto Politécnico de Santarém para que os Politécnicos passem a ser Universidades.
    Ora vejam…
    http://www.oribatejo.pt/2014/02/06/jorge-justino-
    Quiçá a Salchicha Educativa seja forma de designar o produto final da oferta educativa do ensino público que, a par dos Doutorados e dos Mestrados, compreende também os Mestrês e Doutorês.
    E agora digam lá que o país não teve um Chef.

  2. António Monteiro says:

    Os Mestrês da Universidade de Évora…

    Refiro-me, nomeadamente, ao seguinte: No ano lectivo 2007/2008, com pré-inscrições one-line até 3 de Setembro e candidaturas de 4 a 14 de Setembro de 2007, a Escola Superior de Gestão de Santarém anunciou um Mestrado em Gestão, usando o seu símbolo e o da Universidade de Évora; e o Prof. Carlos Zorrinho, então Coordenador da Estratégia de Lisboa e do Plano Tecnológico, foi o convidado de honra na abertura do que então era noticiado* como o Mestrado em Gestão na ESGS em parceria com a Universidade de Évora; em Janeiro de 2008** a polémica instalou-se: para o Presidente do Conselho Directivo da Escola Superior de Gestão de Santarém, o Mestrado que decorria na ESGS era um Mestrado em parceria com a Universidade de Évora, já para a Prof.ª Marta Silvério da Universidade de Évora tratava-se de um curso de pós-graduação não conferente de grau…

    Nos anos subsequentes, o Mestrado em Gestão em parceria com a Universidade de Évora constou da oferta educativa do Instituto Politécnico de Santarém, sem que no site da Direcção-Geral do Ensino Superior se tenha descortinado o mesmo (Mestrado) na oferta formativa do Instituto Politécnico de Santarém.

    *O Ribatejo edição de 19/10/2007.
    **O Mirante edição de 25/1/2008 http://semanal.omirante.pt/index_access.asp?idEdi

  3. António Monteiro says:

    Os Marajás

    Os dias amanhecem com notícias pouco auspiciosas, não diversas das habituais nestes tempos.

    A expressão, em voga, de arremesso no combate politico, os Boys do PS não é correcta, por duas razões, a primeira é que já não são Boys, cresceram – são Men, and Women, a segunda é que não são exclusivo do PS, pois estão associados ao arco dos partidos com vocação governamental, em que alguns até alternam a sua simpatia partidária, em sintonia com o partido que ascende ao governo.

    Mas se não é curial que o Partido Socialista arque sózinho com um anátema que não lhe pertence, pelo menos no todo, o certo é que há uma categoria pessoas com poder, em razão das funções que exercem, as mais diversas, que eu designo por Marajás pela extravagância das despesas, tais como, com um cruzeiro com almoço a bordo e transfer ao cais, ou com férias não gozadas que se traduzem em rendimento…

    Pois, por uma vez, pelo menos por uma vez, devia e podia ser diferente, e o dinheiro do Estado devia ser recuperado em instituições em que se perdeu a noção da boa administração de dinheiros públicos.

    Esta asserção, de senso comum, não nos deve eximir da análise sobre o desperdício de dinheiros públicos, mesmo em sectores estruturantes como o ensino superior, verificados num passado próximo. Tal reflexão terá um retorno tão mais meritório quanto dela se extrair a capacidade de alterar substancialmente uma estrutura de cujo sucesso depende a recuperação económica sustentada do país. E, ao contrário do que se possa pensar, não é uma tarefa ciclópica ou inatingível… pode iniciar-se este exercício por atender às vozes de quem tem, ou teve, a frontalidade de dar um contributo sobre a instituição em que se encontra inserido. Por exemplo, conviria ao Estado recuperar as afirmações do representante dos alunos do Instituto Politécnico de Santarém, na cerimónia de abertura do ano lectivo realizada em Outubro de 2010. Por essas (afirmações), somos levados a um universo impensável de férias não gozadas que se traduzem em rendimento; ou explicado de outro modo, nos lautos rendimentos que auferiram Professores aquando da sua reforma pelos dias de férias não gozados acumulados ao longo dos anos em que exerceram funções dirigentes.

    Assumindo que houve, em Portugal, Marajás (e não apenas na Índia, em tempos recuados) melhor fora que, em nome da equidade na aplicação dos dinheiros públicos, mas também da satisfação das reais necessidades (imensas) do país, circunstâncias como estas não voltassem a acontecer. Mais, que o Estado determinasse o reembolso de verbas despendidas em extravagâncias, tais como, com um cruzeiro com almoço a bordo e transfer ao cais, ou com férias não gozadas que se traduzem em rendimento…
    http://videos.sapo.ao/dYgrN75qdYhQMMgy07Jg

    – “Um passeio à conta dos contribuintes”, Diário de Notícias de 10.12.2008, p.13.
    – “Aniversario da Escola de Gestão celebrado em tom de discórdia”, O Mirante de 18.12.2008, p. 33.

    Os Marajás uma saga sem fim, neste país à beira plantado… http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=631

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