Opinião: Do que é nosso

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João Armando Gonçalves

Numa entrevista recente a um jornal online, o sociólogo António Barreto dava uma resposta surpreendente à pergunta “O que é que falta a Portugal para que o veja com outros olhos?”.
Respondeu o ex-governante: “Há certas coisas que têm sido difíceis de desenvolver em Portugal, como, por exemplo, o interesse pelo domínio público. (…) Em qualquer um desses sítios [no estrangeiro, onde viveu], na fachada das casas, nas ruas, nos jardins, há um grande hábito de cuidar do espaço público, quer da parte dos cidadãos, quer da parte das autarquias.
Cá em Portugal, a cultura do espaço público foi sempre diminuta (…). Nas autarquias (…) é muito fácil descurar o que faz falta – o quotidiano, a segurança das crianças, dos idosos, dos homens e mulheres, as ruas, escolas, jardins – em prol da imagem. (…) O meu grande ceticismo reside nisto: não há hábitos individuais, coletivos ou das instituições locais ou nacionais para dar ao espaço público a prioridade absoluta.”
Agora que vivemos um tempo de formular desejos, tomo emprestada esta ambição do sociólogo. Em primeiro lugar, que nos lembremos que os espaços que se encontram para lá dos limites da nossa casa também são nossos. Mas aqueles que foram escolhidos para cuidar da “coisa pública” também não se podem demitir do seu papel. E têm de, para além de garantir direção estratégica clara, cuidar dos problemas reais do quotidiano e dos espaços que nos são comuns.

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