Opinião: Sem tino

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Rui Lopes Rodrigues

Pessoalmente sempre detestei políticos e instituições incoerentes. Devo ser dos poucos portugueses que não dá os parabéns ao atual ministro das Finanças. Nunca as suas estratégias, decisões ou falta delas, me mereceu elogios. Como cidadão europeu, não me merece elogios a eleição de Mário Centeno para Presidente do Euro Grupo. E não me acusem de falta de patriotismo. Defendo Portugal, não um individuo que quis um cargo.

Há cerca de um ano e meio atrás, a Europa ameaçou com sanções a Portugal e o ministro Centeno cortou no santo graal da geringonça, ou seja, no investimento público. Isso não teria mal nenhum em termos orçamentais e de cumprimento de objetivos quando estes são de cumprimento de margem mínima, isto é, se, por exemplo, tivéssemos uma meta de défice de 2,0%.

Mas, quando Mário Centeno corta perto de 3,5 mil milhões de euros no investimento público, prejudicando serviços públicos em beneficio do clientelismo habitual e, simultaneamente, efetua algumas irresponsabilidades do lado da despesa como empurrar com a barriga parte dessa despesa para o ano de 2018, outra parte dessa despesa para o ano 2019 e por ai adiante, face a tal irresponsabilidade, Centeno fica sem tino.

São as famosas cativações – esta estratégia de empurrar os problemas com a barriga – de que o ministro Mário Centeno tem lançado mão. Efetuar cativações é um bom instrumento de gestão orçamental, mas, faz lembrar as bebidas alcoólicas. Algumas são boas, mas não se pode abusar delas.

Porquê é que não se deve abusar das cativações? Porque teremos sempre de as “libertar” em parte no exercício orçamental do ano seguinte. É como colocar um alfinete a segurar um balão. Pode rebentar! E perante isto, o ministro Mário Centeno, é mestre na arte de enfiar a cabeça na areia e de assobiar para o ar quando lhe é conveniente, principalmente quando quer colocar numa sacola todo o acordo que António Costa celebrou com Bloco de Esquerda e Partido Comunista. Mérito lhe seja dado nessa arte, pois tem conseguido que as esquerdas unidas enfiem a carapuça europeia e hoje, em conjunto, festejem resultados com austeridade encapotada.

Tenham tino. Alguém coerente pode ficar feliz com uma Europa que elege um ministro que só reduz o défice nominal e é incapaz de reduzir o défice estrutural? Ninguém pode ficar satisfeito com um ministro que não cumpre as regras europeias por inteiro e mesmo assim a Europa ainda o faz Presidente do Euro Grupo.

Mário Centeno, que agora é o maior de Portugal, a fazer lembrar Durão Barroso quando foi Presidente da Comissão Europeia, devia ter um pouco mais de tino, quando diz que esta eleição “é um feito sem igual”. Durão Barroso foi Presidente da Comissão Europeia, cargo bem superior mas obviamente, como não é socialista, é irrelevante. Até nisto, Mário Centeno demonstra pouco recato e nenhum tino.

De todo o modo, sobra a questão de saber como é que Mário Centeno, Presidente do Euro Grupo, vai dizer ao ministro das Finanças português, isto é a ele próprio, que ele terá obrigatoriamente de fazer reformas de maneira a cumprir o Pacto de Estabilidade e Crescimento. É uma questão que Mário Centeno fará e responderá numa conversa com ele próprio, numa espécie de esquizofrenia politica indo de encontro, virtuosamente, aos gritos de ordem de Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e Arménio Carlos.

Os portugueses assistem ao fim lento – demasiadamente lento – da geringonça das esquerdas, aguardando, com elevada expetativa, saber se o Presidente do Euro Grupo, Mário Centeno saberá gerir nova bancarrota no país com um ministro das finanças sem tino…

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