Opinião: Lutero

Posted by

Pedro Mota Curto

A Basílica de S. Pedro, no Vaticano, impressiona pela sua grandiosidade e luxo exuberante. Cinco séculos após a construção, continua a causar o maior espanto a crentes e a não crentes, sendo visitada diariamente por milhares de pessoas, oriundas do mundo inteiro.

Martinho Lutero ( 1483-1546 ), monge alemão, há muito que contestava diversas atitudes por parte da hierarquia católica, nomeadamente o facto de o Papa Leão X autorizar a venda de Indulgências a troco da remissão dos pecados. O mais alto dignatário da igreja cristã necessitava de dinheiro para custear as dispendiosas obras da extravagante Basílica de S. Pedro. Assim, a troco de avultadas somas, qualquer crente abastado podia adquirir um papel que o libertava de todos os seus pecados, garantindo a salvação eterna. Muitos fiéis não estavam de acordo com esta atitude do Papa.

Há 500 anos, no dia 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero, aos 34 anos de idade, afixou nas portas da igreja de Wittemberg (Alemanha), as suas 95 Teses contra a venda das Indulgências. Na sua opinião, a Salvação não se obtinha com dinheiro mas sim com uma fé inabalável. Lutero não concordava com o facto de a Igreja poder enriquecer à custa da fé dos seus crentes. Em alguns aspetos, o Cristianismo parecia estar a seguir um rumo diferente do que tinha sido preconizado, há 1500 anos, por Jesus Cristo.

Protegido pela nobreza alemã, que também tinha os seus interesses materiais e políticos, Martinho Lutero continuou a protestar contra algumas atitudes da igreja católica, acabando por ser excomungado no dia 3 de janeiro de 1521.

Apesar de não ser essa a sua intenção inicial, Lutero provocou a divisão da Igreja Cristã em dois ramos, católicos e protestantes. A sua nova religião iria considerar que a Bíblia deveria ser traduzida para alemão assim como vertida em todas as línguas nacionais, de modo a que todas as pessoas a pudessem interpretar livremente, ligando-se diretamente a Deus, pela sua fé e sem necessidade de intermediários, hierarquia católica, santos ou Papa, ao qual Lutero não reconhecia nenhuma legitimidade. O monge alemão considerava que as liturgias também deveriam processar-se nas línguas nacionais e não em latim, de forma a que todos entendessem o que estavam a dizer.

No século XV, Johannes Gutenberg ( 1398-1468 ) inventara a tipografia, utilizando carateres móveis, o que veio possibilitar a impressão e a difusão não só da Bíblia, traduzida para alemão, como de muitos outros livros, alterando por completo o panorama cultural e religioso europeu. Este facto, assim como a insistência de Lutero em como todos deveriam aprender a ler a fim de poderem interpretar a Bíblia (em certos locais quem fosse analfabeto nem sequer poderia casar) provocou a rápida e drástica diminuição do analfabetismo, nos países que aderiram ao protestantismo.

De igual modo e de acordo com diversos historiadores e sociólogos, a alteração de mentalidades relativamente à forma como lidar com o dinheiro, empréstimos, juros, investimentos, lucro, parece ter provocado o desenvolvimento do capitalismo, sobretudo no centro e norte da Europa protestante, em detrimento dos países do sul, mais fiéis ao Papa, à Contra-Reforma, ao Concílio de Trento ( 1545-1563 ), à Companhia de Jesus e à Inquisição.

Este cisma ocorrido no seio da igreja cristã iria provocar diversas guerras religiosas nos séculos XVI e XVII.

Em 2017, assinalam-se os 500 anos da reforma luterana e das suas implicações nas sociedades europeias.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*