Opinião – Despovoando

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Aires Antunes Diniz

Parece o poder apostado em despovoar, descontentando assim cada aldeia, cada vila, cada cidade do Interior, retirando-lhe sempre serviços públicos, como se estivesse apostado em gastar menos com eles. Fá-lo para a seguir lançar o que falta a estes povos no sorvedouro que é um sistema bancário descontrolado, e obrigado pelas suas contas falsas a criar papel e muito papel comercial, cujo valor se esvai em cada momento que convém aos donos do capital.
Mas, antes tentando repovoar e consolidar a vida económica e social de Alfândega da Fé, tinha “De resto, em 1394, D. João I confirma(do) a carta de feira e dois anos depois tornar-se-á no único monarca de que há conhecimento ter estado em Alfândega, numa viagem que certamente teve como grande objetivo a integração e pacificação definitiva de algumas localidades dessa região. Nessa viagem partindo de Coimbra chega ao Porto em Julho de 1395, seguindo para Vila Real e depois para Torre de Moncorvo, onde se regista a presença a 13 de Dezembro do mesmo ano.1”
Agora por vontade de nada fazer e deixar correr o tempo, ou simplesmente esperando que chova, ou sem saber o que fazer perante a enormidade dos problemas, os governantes sentem-se incapazes de mudar o rumo da grei. Com eles estão irmanados neste deixa andar à espera que chova os que apenas aproveitam deles as sinecuras que deles possam obter. E se as coisas correrem mal esperam que a Comissão Nacional de Proteção de Dados impeça a divulgação Urbi et Orbe das suas falhas políticas e profissionais. E disso são feitos os nossos enganos que nos levam às deceções nossas de cada dia.
Somos assim convocados ou melhor obrigados a escrutinar de entre tantas informações, que nos são dadas, as que correspondem ao real que temos de conhecer para coletivamente escolher bem o nosso caminho.
Trata-se quase sempre de um ato de coragem e de cidadania.
Impõem-nos que digamos cada um de nós o necessário para que os governos deixem de retirar do interior os serviços e recursos, logo aqueles que este precisa de ter para ser sustentável social e economicamente. Contrariam este objetivo desejável todos os que perdem com qualquer mudança. E deles e da sua incompetente preguiça é feita a nossa desgraça de cada dia.
Por isso, fomos assistindo nos últimos anos ao fecho de agências de correios e de centros de saúde, à reforma administrativa das freguesias, ao encerramento de empresas, ao continuado abandono dos campos e, como consequência da pérfida gestão do nosso sistema bancário, ao fecho de agências nas aldeias e vilas mais recôndita…
Aconteceu sempre, e sem que houvesse um ato de contrição dos diversos poderes que determinam inexoravelmente o nosso triste quotidiano.
E estes só esperam de nós o nosso conformismo.

1 Francisco José Lopes – As Cartas de Foral de Alfandega da Fé ( 1294-1510 ), Lema de Origem – Editora Lda, Águeda, 2015, p. 112

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