Opinião: Conto(s) de Natal

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Fora isto há muito. Sim, há tanto, que já ninguém sabia se era verdade: embora como verdade pura tivesse vindo contado de pais a filhos, de avós a netos1. Não nos tinham explicado suficientemente que o louro Menino Jesus que nos sorria no seu bercinho, tão descuidado, tão alegre, no meio do esplendor dos círios e do perfume das violetas, era o mesmo Deus descarnado e lívido, coroado de espinhos, alanceado no coração, pregado na cruz e exposto no altar2 (Vejo-o morrer depois, ó pecadores)3
Nem um luzeiro de estrela trespassa agora aquele negrume denso que enche os espaços e por onde o vento anda à solta, varejando as carvalheiras das bouças e assobiando nas agulhas dos pinhais como uma orquestra de flautas4. A vida parou. As nuvens andam a esta hora a rastro pelas encostas pedregosas dos montes. Não se ouve um grito. Tudo na natureza se concentra e sonha5. ‘O ar estava tépido, embalsamado6. Há no ar um não-sei-quê de festivo7 – é como se a Terra inteira estivesse à espreita de ouvir tocar o sino para a missa8-. Uma noite tão escura que parecia impossível que dela pudesse nascer o Sol[…].
O frio está lá fora9. Há a neve que faz mal10. Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada… Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel. Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! – desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Na altura da romaria que arranjassem um novo[…]. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também[…], diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
— Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia de um patriarca.
— A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José11.
Numa pedra, que ali fazia de banco12, junto às brasas13, reviu a ideia de há muito que o andava a desassossegar14, a alegria da aldeia, os bailes à noite em volta da fogueira, a ida à fonte pela manhã, o sino a tocar à missa, e ele a pensar que, quando fosse crescido, havia de ter uma namorada[…], a quem cantasse umas quadras falando de estrelas e de flores15. Como se fosse ontem, e vão passadas umas poucas de dúzias de anos16 – um homem tem o coração cheio de epitáfios e vê outras pessoas felizes17- sentiu duas longas lágrimas a molharem-lhe o rosto18 e se deixaram ficar ao lume19, até que uma luz brilhante e dourada lhe abria a porta de um novo Mundo20. Voltou-se e só então ouviu, por sob o estrondo das vagas invisíveis, os passos arquejantes que haviam precedido o chamamento21 – Oh! Era por isso que eu tanto falava às aves como aos homens, às fragas como aos deuses22. Acordou os ecos da serrania, e arrancou os vales desta espécie de letargo: Nasceu o Filho de Deus [vozeou]. Todos os habitantes da aldeia se puseram em movimento. Por toda a parte começaram aparecer e desaparecer luzinhas, e o ruído de fechar e abrir portas fez-se ouvir em todas as habitações23.
Nasceu o vosso Rabi24. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir25?

(excertos, ipsis verbis, encadeados e copiados de: José Régio – Conto de Natal1; Ramalho Ortigão – O Natal Minhoto2; Bocage – O Nascimento de Cristo3; Carlos M. Dias – A Prenda de Natal4; Raul Brandão – Natal dos Pobres5; Abel Botelho – A Consoada6; José R. Miguéis – O Natal do Dr. Crosby7; Fialho de Almeida – Conto de Natal8; José Saramago – História de um muro branco e de uma neve preta9; Fernando Pessoa – Dia de Natal10; Miguel Torga – Natal11; Urbano T. Rodrigues – A verdade?12; Afonso Duarte – Natal em Família13; Alexandre O’Neill – … com vista ao próximo Natal14; João da Câmara – O Presépio15; Brito Camacho – As Janeiras16; Altino Tojal – Noite de Consoada17; Júlio Brandão – Lenda de Natal18; Aquilino Ribeiro – Sonho de uma noite de Natal19; M. Judite de Carvalho – Conto de Natal20; Jorge de Sena – A Noite que Fora de Natal21; Pina de Morais – O Pai Natal 22; José de Andrade Ferreira – A Noite de Natal23; Gomes Leal – Os pastores24; Sophia de Mello Breyner A. – Os Três Reis Do Oriente25)

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