Opinião: À Mesa com Portugal

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Olga Cavaleiro

É pena que em Portugal a opinião pública se perca em acrescentos de opinião que em nada acrescentam à informação. Queremos tanto estar na linha da frente, queremos tanto ser “civilizados” que roçamos o ridículo quando se trata de perceber o óbvio e o essencial. Tudo isto a propósito da recente polémica criada à volta da apresentação que Marco Gomes fez no Congresso dos Cozinheiros, este ano, dedicado aos produtos e aos produtores.

Precisamente para enfatizar a importância do que nos aparece no prato e que deve, sempre, ser contextualizado, Marco Gomes surpreendeu tudo e todos e, numa apresentação forte, mostrou-nos como a carne que nos aparece no prato, de todo, não é uma peça despida de conteúdo pronta a receber sabor pelo tratamento que vai receber com os temperos e técnicas de cozinha.

Pelo contrário, é um bocado de um animal que antes viveu, fez parte de um rebanho, foi acarinhado por um pastor. Sem qualquer cenografia para criar sentimento ou espetáculo gratuito de provocar emoções, com o seu olhar sério, as suas mãos certeiras e responsáveis deu-nos muita emoção pela forma como nos transmitiu que o sacrifício do animal é, simultaneamente, um ato de gratidão e de dádiva. Desenganem-se os que julgam acerca da gratuitidade desta apresentação.

Ali sentimos o respeito que deveremos ter pelo alimento que nos aparece sobre a mesa e que já foi animal com vida, com sangue a ferver, com coração a palpitar, com olhar doce, companhia do pastor que o conhecia como ninguém. Sem dúvida, aquele cabrito foi comido com outro sentido, com outra devoção de saber que morreu na esperança de ser alimento para mais um dia.

Pena é que a pudor de um país adormecido sobre si próprio e sobre a história da alimentação refletido nas notícias vindas a público faça considerandos sobre esta apresentação e a apresente como um ataque à sensibilidade do público e à dignidade do animal.

Porventura sabem os jornalistas qual é o caminho da alimentação antes de chegar ao mercado e, consequentemente, ao nosso prato? Talvez, até fosse interessante fazer uma reportagem pela forma degradante, fria e descontextualizada como os animais (ovinos, caprinos, bovinos, suínos e galináceos) são mortos.

A ansiedade que o animal sente enquanto espera a morte é de cortar coração. Sabemos que para a nossa consciência lavada e bem arrumadinha é bem mais confortável que os animais sejam mortos em ambientes retirados do nosso quotidiano. Olhos que não veem, coração que não sente. Talvez seja por isso que a carne nos chega à mesa disfarçada, em pedacinhos e desfeita para não percebermos a origem.

No meio disto tudo, até esquecemos o princípio da nossa alimentação. Esquecemos como foi angústia da fome que levou os nossos longínquos antepassados a sacrificar, primeiro, os grandes animais, e depois, os mais pequenos. A história da alimentação é, sobretudo, uma história da fuga à fome. Será que esquecemos isso?

Por isso, na Antiguidade Clássica não se comia carne de forma fortuita, mas o animal era sacrificado num contexto ritualizado. A morrer que fosse por um fim maior.

Talvez seja importante ultrapassar a hipocrisia disfarçada de sensibilidade de quem não percebe a origem das coisas. Conhecer melhor o que somos e o que fomos será melhor.

Como referiu Kevin Gould, jornalista de gastronomia do jornal britânico The Guardian também presente naquela iniciativa, “the new luxury is simplicity, it’s not caviar, follow your thruth, follow your heart and keep the best you have”. Será que estamos preparados para seguir este conselho e manter o que temos e que é o melhor de nós? Os protagonistas da cozinha sim, resta saber se o país acompanha.

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