Opinião: A larva e a borboleta

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Bruno Paixão

Uma das mais impressionantes ideias proferidas no âmbito da Web Summit, e que parece ter passado despercebida, é o vaticínio do seu fundador sobre o fim das redes sociais. De acordo com Paddy Cosgrave numa entrevista concedida a um jornal português, Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat e outras redes de comunicação massiva estarão com os dias contados, será apenas uma questão de tempo…

É claro que o tempo é um conceito demasiado vago e permite que nele sejam incluídas todas as opções, até porque, como afirmou um dos maiores economistas da primeira metade do século XX, John Keynes, “a prazo estaremos todos mortos”.

Se nos detivermos neste cenário de desaparecimento das redes sociais, apercebemo-nos da ruína que poderá abater-se sobre a vida de várias gerações, cuja memória está depositada em bites informáticos que correm nas veias da Internet. Há vidas completamente construídas por detrás de um ecrã de computador e que serão deixadas a nu.

É que, na maioria dos casos, cada pessoa autoconverte-se numa personagem que diz de si o melhor que pode e expõe apenas aquilo que quer que os outros conheçam. Se porventura Paddy Cosgrave tiver razão, imagine-se que de repente a humanidade descobre que em cada borboleta a natureza esconde uma larva.

A ideia de que as redes sociais também têm prazo de validade não parece nada absurda. Mas é uma pesada e quase inverosímil realidade visualizarmos essa decadência no prazo útil da nossa utilização, pois isso arrancar-nos-ia do papel de usuários e voltaria a vestir-nos o fato de cidadãos presentes, coisa que não estou certo de que consigamos todos exercer.

Imaginar
Neste processo de metamorfose, pensemos na imensa solidão que se abateria sobre tantas pessoas um pouco por todo o mundo. Deixariam de ter milhares de amigos, passando a ter os seus cinco ou seis de infância… caso ainda os consigam encontrar. Pode parecer uma caricatura, mas temo que não ande demasiado longe da realidade. Contudo, julgo que hoje não será ainda a véspera desse dia. A cada ano novas redes sociais são apresentadas para atrair e pelejar pela atenção de quem adora socializar virtualmente.

Tal como os jeans, podem até surgir novos modelos, mas a ganga dificilmente sairá de moda. Veja-se o Facebook: líder indiscutível em número de utilizadores ativos, esta rede criada por Mark Zuckerberg conta com mais de dois bilhões de usuários. Estimando que haja 7,5 bilhões de pessoas no planeta, isto significa, em números redondos, que em cada quatro há uma que usa o Facebook.

É claro que não entram nestas contas os perfis falsos e afins. Todavia, a tendência exprime que o sucesso da rede social tem vindo a galopar de ano para ano, inovando, oferecendo serviços, promovendo pessoas e empresas, vendendo produtos e proporcionando entretenimento, como a transmissão de vídeos ao vivo. Na realidade, as redes sociais podem não ser a borboleta, mas são seguramente a energia nas suas asas, deslumbrando em cada voltejar.

De acordo com os dados publicados recentemente pela plataforma Statista, o Youtube ocupa a segunda posição no ranking, com 1,5 bilhões de utilizadores registados, e a aplicação de mensagens instantâneas WhatsApp surge em terceiro lugar. O Instagram surge na sétima posição e o Twitter na décima. O interessante é que todas as principais redes sociais juntas somam mais que a população do planeta. Mesmo sabendo que há pessoas a fazer parte de mais de uma rede, não é difícil que cada leitor deste artigo se encontre em pelo menos uma das que enunciei.

Quer isto então dizer que o fundador da Web Summit, Paddy Cosgrave, estava a delirar quando vaticinou há uns dias o fim das redes sociais? Veremos se daqui a anos, ou décadas, Zuckerberg dirá a Cosgrave o mesmo que disse um dia Mark Twain ao ler espantado o seu nome na necrologia: “Parece-me que as notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas”.

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