Opinião: 1758

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                        Aires Antunes Diniz

Há quase 250 anos o Marquês de Pombal, tentando ultrapassar os problemas decorrentes do terramoto de 1755 cujas repercussões não se circunscreveram a Lisboa e se estenderam a todo o país, sendo necessário ganhar para um Inquérito ao País os padres que nessa altura existiam em cada paróquia. E estes foram sendo convencidos a dar respostas de acordo com um interrogatório que lhes foi enviado através do Bispo da sua Diocese. Assim para o Sameiro, então parte do concelho da Covilhã, esclarece-se quem responde em cada paróquia assim: “Estes estão dentro da Serra, neste Bispado da Guarda, dos que são da parte de Coimbra, dentro, e ao longo da mesma Serra, dirão os párocos do mesmo Bispado.” ( 1 )
Agora, é visível que a rede atual de párocos não conseguiria cobrir o país para dar resposta ao que então se perguntava.
Agora as questões a colocar a propósito dos fogos que fustigaram impiedosamente a região das Beiras e causaram problemas respiratórios em todo os Trás-os-Montes, há que recorrer ao saber que presumimos existir nas nossas Escolas Superiores.
Infelizmente delas nem sequer temos tido conhecimento de quaisquer respostas assertivas sobre as causas dos incêndios, havendo até disparatadas explicações que tal como em 1755 mostram a sua incapacidade científica e técnica. De facto, então todos se puseram a rezar e a pedir a Deus que salvasse Portugal. Foi o que convenceu o Marquês de Pombal a reformar a Universidade.
Agora fomos confrontados com a distribuição incompreensível de diplomas a gente que demonstrou não ter nenhuma competência para ocupar lugares chave no combate a incêndios. A responsável do MAI ainda tentou despedir um deles, mas este disse que não saía. E só saiu quando se soube do sem fundamento do seu diploma de engenheiro de proteção civil.
Mesmo que continuemos a pensar que existe saber útil nas nossas escolas superiores e até secundárias, nada deste saber parece estar já transferido para os que têm de atuar ao nível da administração pública em defesa da floresta, da agricultura e da pecuária e até da segurança da mobilidade dos cidadãos. Somos por isso confrontados com falhas graves nos diversos patamares da hierarquia do Estado.
Apesar destas evidências só foi castigada a ministra Constança Urbano de Sousa, repetindo-se aqui o que acontece no futebol sempre que uma equipa joga mal, ou seja despede-se o treinador e no caso a equipa continua a jogar bem ou mal sem qualquer problema de maior. E ninguém pergunta pelas falhas verificadas antes e depois.
E agora todos anseiam por muita chuva.
Mas, isso não chega para resolver os problemas das florestas…

( 1 ) Adelino Pais Fernandes – Concelho da Covilhã e Memórias Paroquiais de 1758,
Coimbra, Outubro de 2000, p. 139.

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