Incêndios: Abandono ameaça retoma das pequenas explorações agropecuárias

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O abandono dos campos facilita a propagação dos incêndios e constitui um dos principais obstáculos à retoma da atividade agropecuária dos pequenos produtores atingidos pelos incêndios deste ano.

A produção florestal e a agricultura “podem dar um contributo muito importante à economia nacional”, segundo o presidente da Câmara Municipal de Penela, Luís Matias, mas os donos de diferentes explorações, no distrito de Coimbra, queixam-se do abandono das parcelas por parte dos vizinhos.

“É um dos graves problemas da nossa floresta”, lamenta Augusto Manuel Filipe, que perdeu 22 caprinos e um estábulo, além de alfaias e alimentos para os animais, no fogo que lavrou no concelho da Lousã, nos dias 15 e 16 de outubro.

Olhando para um terreno confinante com dezenas de árvores queimadas, na freguesia de Serpins, afirma à agência Lusa que “o fogo entrou por essa faixa”, propriedade de uma família que emigrou para o Brasil há cerca de 60 anos.

“As pessoas, com a vida difícil, foram para fora há muitos anos e os terrenos estão abandonados”, sublinha o criador, conhecido na localidade apenas por Nelo.

Se o terreno do vizinho estivesse cultivado ou limpo, “nada disto teria acontecido”, com o fogo a avançar para a zona de pasto e para as instalações onde vieram a morrer as cabras, algumas prenhes, acrescenta.

Na região Centro, o abandono total ou parcial é geralmente associado à emigração e à decadência da agricultura, mas verifica-se também em matas nacionais e em terrenos comunitários, os baldios, em cogestão dos compartes com o Estado, através do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

O baldio da Mata do Sobral, cuja gestão cabe ao ICNF e aos compartes, que há alguns anos delegaram a sua responsabilidade na Junta de de Serpins, ardeu por completo no dia 15 de outubro, mais de 25 anos após ter sido devastada por outro incêndio.

Em março, o município da Lousã anunciou que iria promover, em parceria com a Junta de Freguesia, até 2020, ações de recuperação e valorização da Mata do Sobral ao abrigo de um projeto apoiado pela União Europeia, na sequência de uma candidatura aprovada no âmbito do programa Life.

A iniciativa de reabilitação visa o controlo e erradicação de mimosas e outras invasoras no baldio, bem como a conservação de habitats e espécies autóctones predominantes, como sobreiros, carvalhos e medronheiros.

“Todos ficámos mais pobres” depois do último fogo, refere à Lusa o comparte António José Ferreira, alegando que aquele espaço comunitário “nunca foi cuidado de forma a evitar a tragédia”.

“Nem a cortiça queimada foi retirada nestes 27 anos”, critica.

Na Ferraria de São, em Penela, houve no passado um rebanho comunitário com mais de mil caprinos, mas “hoje não chegarão certamente a uma centena”, de acordo com o autarca Luís Matias.

Em junho, o avanço das chamas foi travado por sobreiros que existem junto à aldeia, uma proteção natural que, por iniciativa dos moradores, vai ser reforçada com um anel de proteção em que serão plantadas folhosas diversas neste inverno.

“Apesar de nós termos os nossos terrenos limpos, temos vizinhos que não limpam”, critica, por seu turno, o viveirista Jorge Alexandre, cuja exploração, em Canas, Miranda do Corvo, foi atingida em agosto por um incêndio que começou no concelho de Coimbra.

“Cinco mil citrinos prontos a comercializar foram completamente destruídos pelo fogo”, apesar de as labaredas terem abrandado quando encontraram uma linha de castanheiros que separa os eucaliptais alheios da estufa do produtor de árvores de fruto.

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