Opinião – Debaixo de fogo

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Bruno Paixão

 

Ainda o lastro de destruição fumegava as perplexidades deixadas em Pedrógão Grande quando, apenas quatro meses depois, e sem que uma nova catástrofe estivesse nos nossos horizontes, acabou por rebelar nas florestas um novo manto de raiva ardente, deixando-nos mudos, suspensos, impotentes para acudir, sem compreensão.
Nos últimos dias ouvi relatos de pessoas chegadas que, direta ou indiretamente, tiveram de conviver com a tragédia. Falei com um autarca que acompanhou a frente do fogo junto aos bombeiros e esteve horas sem saber dos filhos, entregues aos avós, que estariam numa das zonas mais críticas, perseguidos pelas labaredas. Ele dizia-me que nem um batalhão de bombeiros seria capaz de dominar aquilo, ante as condições tão adversas. Houve um arrastamento das massas de ar quente e seco de África, um fenómeno agravado pelos ventos fortes de Sul.
Um outro amigo esteve parado no IP3, cercado pelo fogo. Esteve ali preso durante três horas em cima de uma ponte, por volta das seis da tarde. A GNR foi ordenando os veículos em duas faixas, mandando desligar os motores. A partir de dada altura a rede de telemóvel começou a falhar e ficou incomunicável. As fagulhas caíam como chuva. Ele recordou a imagem dos eucaliptos como lenhos de cinza acesa. Cada vez mais intenso, o braseiro levou-o a despir parte da roupa. O fumo tóxico tornava ainda pior a visão infernal de Dante. Mas para estas pessoas tudo acabou bem. Contudo, há a lamentar as que perderam a vida, todas as que ficaram sem casa, sem sustento, sem nada, as fábricas em labaredas que deixaram no desemprego uma parte destas comunidades, e muito mais fica por dizer, porque as palavras não alcançam as expressões de dor.
Deu-se a circunstância de, escassos dias antes, ter percorrido uma estrada municipal, estreita, no meio de nada, numa das zonas mais fustigadas pelos incêndios. Pensei: “se isto arder, nada aqui escapará”. O que vi foi apenas o retrato da desertificação das nossas zonas rurais e de interior, acelerada por políticas centralizadoras, que concentram a riqueza do País em sorvedouros bipolares como Lisboa e Porto. E isto não é coisa de agora. Bastaria que recuássemos, para não ir mais longe, aos tempos de euforia em que a agricultura foi trocada em Bruxelas por dinheiro para auto-estradas e betão. Portugal evoluiu muito, em muitos sentidos. Mas no que respeita à floresta e aos incêndios, temos a lamentar décadas de desleixo e de incompetência.
Não sei aferir se é ou não possível manter a extensa mata de pinheiro bravo e de eucalipto ao serviço da indústria da celulose. Mas parece-me evidente que é preciso corrigir o que não está a dar bons resultados. As pessoas continuam a fazer queimadas e fogueiras, deixam acumular sobrantes nas suas propriedades, não limpam os pastos, não previnem. A vigilância é insuficiente. Por outro lado, o Estado aparenta não estar coordenado nem mobilizado, o que agrava a resposta às catástrofes. E isso resulta no pior: 65 pessoas mortas no incêndio de Pedrógão, o mais mortal de que há memória em Portugal, e mais de 40 pessoas mortas e vários feridos graves nos que eclodiram neste fim de semana de outubro. É inegável: o Estado falhou.
Marcelo veio falar ao País. Demorou, mas falou. Demonstrou que a sua linha de comunicação estreita com o Governo sofreu um revés. Mostrou-se enlutado. Já não disse, como em Pedrógão, que “tudo tinha sido feito”. Não quis saber de relatórios. Sentiu o pulsar do povo. Falou por todos. Pena é ter falado nas entrelinhas, levando a que os jornalistas e comentadores passassem os dias seguintes a decifrar. O Presidente falou em consequências políticas. A demissão da ministra não é a solução de todos os problemas. Mas foi a solução de pelo menos um: encontrar um bode expiatório que nos redima a todos da nossa culpa. O Governo demitiu a ministra da Administração Interna, prometeu mais meios e uma reformulação profunda do setor. O Presidente pediu um “novo ciclo”. Assunção Cristas, que enquanto ministra da Agricultura liberalizou a expansão do eucalipto, foi rápida a apresentar uma moção de censura e a vincar estar disposta a ser a líder da oposição. A Passos, demissionário, já só lhe restava pedir a demissão de Costa.
Como disse em agosto de 2010 Paulo Portas, “Fazer politiquice com os incêndios é imoral”. Vejo lágrimas de crocodilo e aproveitamento por todo o lado, sobretudo nas redes sociais, cheio de recalcamentos e ódios inflamados. A culpa não é laranja, rosa ou azul. A culpa é de todos. E por isso a solução também tem de vir de todos, sob pena de Portugal ficar politicamente em escombros.

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