Opinião: A “hetacombe”

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Gonçalo Capitão

Há uns anos, num canal de televisão, uma dirigente do PSD falava repetidas vezes numa “hetacombe”, para descrever, deduz-se, um estado catastrófico do partido. Anos volvidos, tenho que dar-lhe razão: creio que a velhinha palavra hecatombe não tem força para descrever as consequências do vendaval autárquico; acho que inventar uma palavra é o melhor…

Tareia bíblica em Lisboa e no Porto, incapacidade de recuperar Coimbra (afinal vamos mesmo ter aeroporto internacional, já que não me passa pela cabeça que o Dr. Machado nos tenha enganado) e Sintra, bofetada sonora em Oeiras, mistério (para mim) no Funchal, e por aí fora…

Tentando perceber a razão, encontro três explicações imediatas: António Costa tem mostrado resultados e, sobretudo, com boa cara, não fazendo da política um frete ou um uma autoflagelação medieval.

Em segundo lugar, apesar do seu trabalho patriótico e da sua inegável honestidade, Passos Coelho nunca conseguiu libertar-se da imagem do castigador, nem recuperar alguma da aura mítica que o tornou no mais carismático líder da JSD de que tenho memória. Havia dias em que parecia que todos lhe devíamos dinheiro, embora como seu amigo bem saiba o esforço pessoal que fez para comandar o PSD com elevação e inteligência.

Por fim, creio que o PSD passou anos a implodir às mãos de jogos internos de grupos e grupelhos que, a golpes de listagens de militantes com quotas cirurgicamente pagas, foram destruindo, humilhando e afastando muitas das cabeças pensantes do partido.

A riqueza do partido nos seus melhores momentos sempre esteve na sua capacidade de casar bases interclassistas com uma elite (os chamados “barões”) que constituíam um repositório de credibilidade e um regimento de lanceiros apontados à argumentação (mais) fortemente doutrinária das figuras do PS.

Dito de outro modo, creio que o “liberalismo” do PSD estava no livre pensamento das suas individualidades assente num respaldo de uma base programática e humana que o ancorava ao centro, e não nas práticas governativas de direita em que Passos Coelho e alguns dos seus apoiantes (muitos dos quais bem cinzentos e sem sombras, apenas usando as algemas das suas tribos privativas) o estribaram.

Acompanharei com curiosidade e gosto o debate Santana vs Rio, e com especial prazer e saudade o regresso da dupla Freitas/Martins à produção intelectual, com brilhantismo garantido. Teria sido interessante também ver uma primeira rodagem de Pedro Duarte, mas se calhar não comprou carro para ir ao Congresso…

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