Opinião: A Fábula de Etosha

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Pedro Mota Curto

A estação seca estava a chegar ao fim. A evaporada savana apresentava-se consideravelmente desidratada, sendo a falta de água uma realidade. Não chovia há muitos meses.

O rio mais próximo, o rio Cunene, encontrava-se bastante mais a norte, na fronteira com o sul de Angola. O outro rio, o rio Orange, localizava-se na fronteira sul, junto à África do Sul. No essencial, a Namíbia só tinha dois rios, um na fronteira norte e outro na fronteira sul. Cerca de 80% desta enorme nação é constituída por desertos, incluindo toda a costa, desde o sul de Angola até ao norte da África do Sul.

Daí a poucos meses, a situação inverter-se-ia, com a chegada da estação das chuvas. Os pequenos lagos de lama ressequida e os pobres leitos dos rios secos iriam, durante um curto período de tempo, recuperar o estado líquido que teria efeitos milagrosos na fauna e na flora desta região situada no interior norte da Namíbia.

Em agosto, os animais concentram-se nos pequenos lagos existentes. A água comanda a vida. É espantosa a diversidade de animais que sobrevivem neste clima quase desértico. Zebras, gazelas, gnus, kudus, todos à volta do apertado lago. Uns bebem água, outros esperam por um lugar vago, sem atropelos.

De súbito, todos levantam a cabeça, como se tivessem detetado algo que os inquietasse. Parecem escutar as novidades que o fraco vento aproxima. Ficam estáticos e silenciosos. Audição e olfato em alerta máximo.

Minutos depois, lentamente, começam a afastar-se do lago que fica deserto. Todos os animais permanecem a uma distância considerável, silenciosos, numa calma aparente, num cenário difícil de entender, para um europeu quase ignorante das realidades africanas.

O tempo passa e nada acontece. Num círculo concêntrico, afastados e imóveis, expostos ao quente sol africano, permanecem centenas de animais.

De súbito, ao longe, um animal caminha, pausadamente, em direção ao lago. Não se vislumbra quem será o ilustre visitante, pois está demasiado distante. Imponente, continua em direção ao lago deserto. Cada passada é elucidativa da sua presença, do seu poder, da sua personalidade, confiança e segurança. Os seus músculos atemorizam e dominam a paisagem, com elegância, caminha lentamente impondo um respeito que alastra por toda planície.

Contorna o lago, analisa cuidadosamente tudo o que a rodeia. A leoa parece não querer correr qualquer risco. Finalmente, começa a beber água, sequiosa. Demora o tempo que lhe apetece. Por vezes, levanta a cabeça e olha em todas as direções. Quanto termina, sobe a um pequeno rochedo e deita-se, olhando para o lago, usufruindo da paisagem mais fresca. Toda a água lhe pertence. As centenas de animais, de pé, imóveis, em silêncio absoluto, nada dizem, mas percebe-se que concordam com a imponência e a elegância da solitária leoa.

Mais tarde, a leoa afasta-se, com dignidade, na mesma direção. Quando desaparece no horizonte, os outros animais começam a regressar ao lago, cuidadosamente e olhando sempre em redor, ocupando todos os lugares disponíveis para continuarem a saciar a sua sede. A sensação geral parecia ser de alívio. A manhã até tinha corrido bem. Pelo menos era a mensagem que nos transmitia o silêncio sepulcral desta imensa planície, em Etosha.

Será difícil encontrar melhor forma de explicar a alguém o significado da palavra “respeito”.

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