“Tudo o que vejo é arquitectura, incluindo nas salinas”

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Gilda Saraiva

 

Gilda Saraiva é arquiteta, mas a crise na construção levou-a a optar pela salicultura tradicional

É por amor à arte ou em nome de um legado familiar?
Eu acho que é um bocadinho de tudo. As salinas são da tradição da família. A arquitetura é uma arte que adoro. Estou sempre a fazer arquitectura, e tudo o que vejo é arquitectura, incluindo nas salinas. Na altura, o mundo da construção estava mau em Portugal e decidi que tinha que agarrar uma atividade da Figueira da Foz, porque acho que poucas pessoas amam a Figueira da Foz, e, na minha opinião, temos que amar mais aquilo que é nosso. O sal é um produto único da Figueira da Foz, e temos que o amar.

Não acha curioso que uma arquiteta se dedique a uma profissão que é socialmente pouco reconhecida, que é mal remunerada e que está quase em vias de extinção?
Eu estou aqui para dar a volta a isso. Para fazer com que mais pessoas venham para as salinas, de forma a que a profissão seja reconhecida. Para além de fazermos o sal e uma atividade mais primária, estamos a fazer com que as aves tenham locais para se alimentar e para descansar, uma biodiversidade única que poucos figueirenses conhecem.

Qual é a diferença entre um marnoto e um salineiro?
Acho que o marnoto sabe mais um pouco sobre a antiguidade, a história, sabe um bocadinho de todas as técnicas do salgado, como fazer um sal mais fino ou mais grosso, como fazer uma marinha, como trabalhar e preparar as lamas, como fazer as melhores limpezas, como preparar melhor o chão, como “temperar os terrenos”, como fazer com que o sal não saia tão escuro, tão grosso ou tão fino.

A safra deste ano é boa?
Este ano, a safra é boa, porque o ano é bom. Isto está relacionado com o ano, porque há meses em que não chove. Se há muitos meses que não chove, quer dizer que há uma certa estabilidade; e se há uma estabilidade, todas as semanas estamos a tirar sal. Caso houvesse uma instabilidade no tempo, ficaríamos em “banho-maria” ou em “águas de bacalhau” [risos].

A zona salgada da Figueira da Foz está a ser explorada na plenitude de todas as suas capacidades?
Há um trabalho muito grande… Neste momento, são 45 salinas ativas. É um número que as pessoas não têm noção. Existe uma municipal e as restantes são privadas. Este ano, ainda não estão a funcionar, mas pode ser que para o próximo ano estejam a funcionar mais duas salinas.

Esta entrevista pode ser vista na Figueira TV

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