Opinião: Quatro sinais de desnorte

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Norberto Pires

1.Pedro Passos Coelho, ex-PM de Portugal: “Na altura, procurei que ele [André Ventura] se clarificasse perante as pessoas. Não tinha dúvidas sobre isso porque já tinha falado com ele sobre o que se passa em Loures e noutros pontos do País. Existem respostas que são discriminações positivas, mas as pessoas acabam por criar uma espécie de oferta garantida pública que não tem nenhuma contrapartida. Não podemos fechar os olhos, na política, a estas situações. Não podemos ter medo dos demagogos e dos populistas que permitem e, no fundo, com a sua atitude, permitem que situações que acabam por ser profundamente injustas perdurem. E isso, sim, cria uma reação muito negativa”.
Não percebo este discurso e não me identifico mesmo nada com ele. Isto não pode ser dito pelo líder do PSD. Muito menos por uma pessoa que já foi PM e sabe muito bem o que deve ser feito. O estigma que lança sobre certas comunidades é inaceitável, populista, acicata fantasmas de racismo e de xenofobia e, acima de tudo, é um exercício de pura de demagogia. Eu sei que o PSD não é nada disto, porque muito que os atuais dirigentes do PSD se esforcem para destruir o seu próprio legado político, aquilo que fizeram no passado e os valores que sempre defenderam.
Pedro Passos Coelho sabe muito bem, porque já foi PM, que existem abusos nos vários subsídios da segurança-social. As situações de abuso e de injustiça têm de ser combatidas, justamente, com informação detalhada, rigorosa e pública sobre a atribuição de subsídios, bem como com mecanismos que permitam atuar na deteção e regularização de situações de abuso e injustiça. Isso tem de ser feito, independentemente das etnias. Como as situações de abuso e injustiça perduram, isso significa que PPC foi incapaz de as resolver. Ele e os outros PM anteriores a ele. Agora, fazer este discurso populista, inconsequente, eleitoralista e que acicata manifestações de intolerância contra minorias étnicas é impróprio de um ex-Primeiro Ministro, de um social-democrata e de alguém que se diz europeísta e que considera a integração de multiculturas na nossa sociedade como um dos fatores essenciais à paz e ao futuro de todos nós. A sério, não sei o que se passa no PSD, mas isto é o total desnorte e a total ausência de valores. Deviam ter vergonha.
2.Em altura de eleições, os jornais revelam um especial interesse pelas aquisições de casas por parte de políticos no ativo. Depois o interesse morre. Eu gostava que o escrutínio dessas e outras aquisições, nomeadamente movimentações financeiras, fosse permanente. Sobre o “caso” do Fernando Medina não consigo perceber o problema: O homem comprou uma casa ao lado da do sogro, por 645 mil euros. Qual é o problema? É muita massa, eu sei, mas o dinheiro não era dele? Há dúvidas sobre de onde veio? Ou a ideia é só lançar fumaça?

3. A comissão de análise dos incêndios da região centro pediu mais 30 dias para terminar o relatório. O Presidente da República já autorizou. Se há coisas que não são aceitáveis, esta é uma delas. Tudo falhou nesta tragédia e até a comissão de análise falha os prazos que aceitou. Lamentável.

4. Resolvi ouvir, na terça-feira passada durante o dia (enquanto andava de um lado para o outro), o áudio do Prós-e-Contras da RTP1. Fiquei fascinado com a parte em que a Raquel Varela tentava ensinar economia ao Fernando Alexandre da Universidade do Minho e dizia, do alto da sua enorme competência que a Autoeuropa não produzia, não criava valor, só montava. E onde tinha obtido ela essa informação absolutamente genial? Sei lá, se calhar foi o Primeiro-Ministro de Bratislava que lhe disse (segundo ela, esse PM teria enfrentado a administração da VW dizendo “querem o mesmo que na Alemanha? Então paguem o mesmo salário”). Eu fiquei pasmado, pois não sabia que Bratislava tinha um Primeiro-Ministro. Pelo meio havia um trabalhador da AutoEuropa, não sindicalizado, que acusava todos aqueles de quem discordava de estarem ao serviço do inimigo. E quem era o inimigo? A administração da empresa. O coitado do professor Fernando Alexandre ainda teve de ouvir que não percebia nada de empresas, nunca tinha trabalhado por turnos e estava a representar a administração da Autoeuropa. Ele e o Luís Pais Antunes.
Apesar de algum radicalismo presente, especialmente da Raquel Valera (não sei porquê, mas veio-me à memória um famoso discurso de Vasco Gonçalves na SOREFAME) e de alguns trabalhadores, gostei muito de ouvir o representante da comissão de trabalhadores. Dizia ele que negociar é ceder, de parte a parte, colocando os trabalhadores e os interesses da empresa em 1º lugar. Ao mesmo tempo que dizia que a negociação que permitiu trazer o T-Roc para Portugal, com a qual eles concordaram, tinha por base alterações na organização do trabalho. Quanto ao Prós-e-Contras confirmei de novo a minha opinião: aquilo transformou-se num magazine de variedades.

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