Opinião: Põe-me um penso

Posted by

Paulo Almeida

Termina amanhã a semana de greve dos enfermeiros com uma manifestação em Lisboa e uma nova dinâmica grevista instalada. Agora temos a esquerda radical a insistir na necessidade do diálogo e das pontes negociais com o governo do PS. A própria CGTP parece andar confusa com a sua orientação e identidade de género, pois já ninguém percebe muito bem o que é. Sinais dos tempos, termos uma CGTP-IN que mais parece estar OUT.

Amanhã será a prova de fogo. Há 3 anos atrás, em Setembro de 2014, os enfermeiros também protestaram em Lisboa e, logo pelas 12h30 alguns deitaram-se no chão na estrada, tentando demonstrar a exaustão que diziam sentir. Arménio Carlos aplaudia e afirmava que o Governo de Passos “tem medo da luta dos enfermeiros” por considerar que “pode pôr em causa a vida” do Executivo, e ainda que era preciso “uma nova política e de um novo Governo”. Em uníssono, os enfermeiros gritavam “Demissão, demissão, demissão”.

As reivindicações de então eram praticamente as mesmas de hoje, com uma diferença assinalável: na altura, não havia greve nenhuma em que não se pedisse a demissão do governo e até agora não vi ninguém pedir isso. Uma alteração que significa que a greve actual é mais de quem trabalha e menos da política?

Em rigor, os enfermeiros sabem que é mais provável a greve dar frutos do que o governo, ou alguém no governo, se demitir. Esta é a nova dinâmica. Nas greves pré-geringonça era o oposto. Perante mais uma ameaça de greve, o governo fazia contas e dizia que o custo de todos trabalharem 35 horas era incomportável para um país que tinha acabado de se libertar da Troika (Maio de 2014, lembram-se?).

Toda a esquerda garantia que o país estava pior do que quando apelou ao resgate internacional e como os grevistas já sabiam que as contas não iam mudar, toca de pedir a demissão, a única via para fazer contas novas. E assim foi, a geringonça tomou o poder, fizeram-se outras contas, e os novos governantes declararam o fim da austeridade. Por isso, não se entende por que não se repõem as 35 horas e se descongelam as progressões nas carreiras. Dos enfermeiros e de todas as outras profissões, não só das que andam a fazer greves.

O que menos ainda se entende é andar há meses com este assunto em mãos e não se acautelarem as paralisações dos serviços. Enquanto não se decidem, os utentes da saúde têm a oportunidade de verificar se a apregoada reposição dos rendimentos chega para ir a um hospital privado fazer o que o SNS devia assegurar e que mais dia menos dia corre o risco de parar com outra “greve”, a dos fornecedores, cada vez mais credores.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*