Opinião: Ensino da Medicina

Posted by

Norberto Canha

Foi amplamente difundido na imprensa falada ou escrita que o número de vagas de acesso ao ensino superior ( 52 mil) foram quase todas preenchidas. Particularmente nas Engenharias, Medicina, Farmácia e Enfermagem.

Do número de vagas abertas para Medicina em Coimbra entraram 250 alunos, embora já antes o bastonário da Ordem dos Médicos tivesse advertido que o número era exagerado e que iria criar desemprego. Tanto assim é que para a formação complementar não há vagas para todos e criaram o título pomposo de médicos indiferenciados.

Quando, ainda em exercício, no Conselho Científico da Faculdade de Medicina se quiseram baixar para 80 o número de vagas, eu expressei-me dizendo que a capacidade formativa era para 120 alunos e que esse número devia ser mantido e não o que o Estado impunha.

Vem agora o Estado novamente a determinar por imposição que devem ser 250 as vagas. Tantos anos passados, vêm dar-me razão… O Director da Faculdade de Medicina de Coimbra, na televisão, defendeu que o limite para um ensino capaz são 150. Que atitude tomar? A sensata, do Director da Faculdade, ou a insensata imposta pelo governo? Tanto mais que o Director da Faculdade chamou a atenção para a carência de meios e estes não são colmatados pelo acréscimo da exigência.

Os estudantes de Medicina, que no meu tempo de estudante, de assistente e de professor, eram acarinhados no velho Hospital, hoje parece que são tidos como filhos mal-amados. Eles sentem – e até porque são assim tratados – que são um sequestro…

Prova disso é que se quiserem lá tomar uma refeição, são tidos como estranhos ao Hospital e pagam ao preço do público em geral. Felizmente, no Hospital Pediátrico, são tratados de forma diferente e até se sentem confortáveis em lá trabalhar, e a refeição é paga ao preço da dos funcionários.

Noutros tempos, embora houvesse doentes deitados em macas ou colchões no chão, para o ensino e investigação gozavam do estatuto de urgentes. Hoje não. Talvez a razão maior e justificativa seja que transformaram os Hospitais em empresas públicas para justificar os orçamentos cada vez mais discrepantes… Aumentam os administradores, concede-se menos tempo à observação de um doente, mas privilegiam-se as estatísticas. Não ouvem os que sabem, mas escutam os subservientes e a Medicina dos HUC, que era de referência, está a perder cada vez mais a sua qualidade.

Antes, procuravam-nos, isto é, vinham de todo o país para ser tratados em Coimbra. Hoje, começam a fugir para os locais de onde antes irradiavam para Coimbra…

Especificamente quero referir-me à ortopedia que era um serviço de referência, não só nacional como comparável com os melhores serviços europeus. Têm-no destruído progressivamente… O mais novo dos seus médicos do quadro ronda os 50 anos… Um ortopedista tem (quando tem) uma sala de operações por semana…

Tem salas de operações fechadas por falta de anestesistas. Novamente, a responsabilidade é dos governantes que, para agradar ao público, um anestesista só pode ser responsável por um doente, quando na Suécia pode tutelar três salas de operações, como aliás sucedia em Lourenço Marques.

É que há um enfermeiro a colaborar com o médico anestesista e ele pode controlar a aplicação da anestesia, e se houver qualquer irregularidade, pode apelar ao médico, trocar de sala com ele… Como sucede actualmente, permite que o anestesista possa estar confortavelmente sentado num sofá, sonolento.

Futuro Presidente da Câmara, como tem (ou tinha) um representante da Câmara no Conselho Hospitalar, imponha-se ou lute para que tudo seja diferente!

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*