Opinião: Mudanças tenebrosas

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Aires Antunes Diniz

O Século XIX foi para os clericais e para aqueles que acreditavam na Igreja como sustentáculo da Monarquia, um tempo terrível e tormentoso. Por isso não admira que o Século XX começasse para eles como um tempo de esperança. Era o que acontecia também na Guarda e em Coimbra onde foi estudar Alberto Diniz da Fonseca que conta: “Quando eu fui para Coimbra, em Outubro de 1900, já andavam no ar rumores da tormenta que havia mais tarde de ensanguentar o país, pondo nas mãos do Buíça o bacamarte regicida e provocando em seguida a queda das instituições”.1

Era um tempo em que a ala mais tradicional da Igreja Católica foi fazendo com que internamente houvesse uma tomada de poder. Foi o que começou em Portugal pela colocação como Bispo da Guarda de Manuel Vieira de Matos em 1903 e pela elevação de Rafael Merry del Val a Secretário de Estado do Vaticano e a paulatina mudança da hierarquia católica, desaparecendo sucessivamente a linha liberal tal como era conhecida entre nós a representada pelo Bispo de Viseu Alves Martins.

Não admira que até alguns semanários de Portugal, concretamente na Sertã, ridicularizem Rafael Merry del Val, explicando talvez por que o processo da sua canonização esteja parado. Talvez a razão seja como Ruy Pires escreveu a propósito de Pio X: “Pois da pena, ou da boca de Leão XIII nunca saiu coisa que pudesse dar visos de razão a incompreensível determinação ginófoba do atual pontífice e que, a ser certa, como o ouvi dizer, viria a constituir um libelo formidável contra a mulher, afrontando-a com injustas suspeições ou magoando-a no seu brio, na sua dignidade, na sua honestidade”.2

Tal como agora acontece com o populismo que aflige o mundo democrático, também gente bem-intencionada tudo fez para salvar almas. Foi então que um movimento com uns poucos jovens foi crescendo e transformou um país anticlerical num povo de gente beata. Também as mulheres que em 1911 tentavam construir a sua autonomia social e política, livre da tutela sufocante de homens, foram primeiro traídas pela República e mais tarde sufocadas pelo Estado Novo.

Toda esta evolução tinha sustentação nas ideias de uma Igreja Católica, que procurava condicionar a seu favor a transformação das ideias políticas e com estas os direitos de Homens e Mulheres, tudo fazendo para que houvesse uma Concordata, onde o divórcio era interdito. E, assim, só quando a Igreja Católica mudou a sua postura perante o Estado Novo também a democratização se desenvolveu, notando-se a mudança de muitos homens e mulheres para as fileiras democráticas.
Agora sob a liderança do Papa Francisco tudo parece mudar também.

E como explicar isso vai ser o que vou tentar fazer nos próximos dias.

1 Alberto Dinis da Fonseca – A Pré-História do C.A.D.C. 1901-1905, Outeiro de S. Miguel, 1951, p. 7.
2 Voz do Povo, 6 de Agosto de 1911, ano 1, n.º 36, p. 2, colunas 1 e 2.

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