Opinião: À Mesa com Portugal

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Olga Cavaleiro

Dizem que escrever na doçaria os sonhos não vividos deu à luz doces, simultaneamente, sumptuosos e simples. Sumptuosos na forma, no sabor, no aroma e na textura. Simples nos ingredientes, quase sempre farinha de trigo, açúcar, ovos e água. Dizem que, no segredo dos conventos, nasceu a mais bela e sumptuosa doçaria cantada por poetas e escritores que nela viram a vida não vivida de quem não pode tomar as suas próprias escolhas, mas teve de seguir decisões tomadas pelos outros.

Este é o mito nascido da poesia que outrora transformou a realidade saídas das mãos das freiras feitas doceiras e autoras de muitos dos doces portugueses ditos conventuais. O mito reproduziu-se sem se perceber que, mais que o mito, deu-se uma conjugação feliz de fatores que nos deram uma das maravilhas da nossa gastronomia, a doçaria conventual.

De facto, muitas eram as mulheres que recolhiam aos conventos e mosteiros para aí passarem o resto da sua vida. Enquanto jovens, tal decorria da decisão familiar que assim dava primazia ao filho primeiro, homem, herdeiro do título, da herança e da casa. Às filhas, sobretudo, se segundas e terceiras estava reservada a vida religiosa por não ser possível muitas das vezes um casamento de acordo com a condição social.

Feito o noviciado, faziam os votos e colocavam o véu que marcava a sua despedida do mundo e a sua entrada na clausura. Às mais velhas, era destinado a vida religiosa em situação de viuvez. Em ambas situações, procurava-se a dignidade das mulheres que, assim, estariam preservadas do mundo não muito amigo da condição feminina.

Educadas, cultas, habituadas ao requinte, as mulheres que integravam os conventos eram criadas para ser exemplos da condição feminina, quer no comportamento, quer na educação. Por isso, eram possuidoras de uma cultura rica, de ensinamentos nas artes de mãos e, também, de grandes conhecimentos culinários. Tal fazia parte da educação de todas as que eram criadas para mais tarde fazer brilhar a honra, a dignidade e a grandeza do nome ou título da família.

São estas mulheres que levam consigo muitos conhecimentos culinários que nas cozinhas dos conventos vão encontrar a disponibilidade de um ingrediente que modificou a doçaria portuguesa, o açúcar. A maior abundância deste permitida pela produção bem sucedida da cana-de-açúcar, primeiro na Madeira e, depois, no Brasil, permitiu que a sua utilização se estendesse da botica para a cozinha. Aqui começa a magia de muitos dos nossos doces conventuais onde o açúcar aliado a um saber-fazer elaborado dá origem a tantos e tão bons exemplares da nossa doçaria conventual.

A história da doçaria conventual portuguesa está ainda por fazer como está por descobrir que doces tiveram origem nos conventos e quais os que ali se desenvolveram transformando-se em versões várias da mistura do açúcar, dos ovos, da farinha e da água. Pois é verdade que muitos dos doces ditos de origem conventual já existiam antes da proliferação dos conventos, no entanto, sabe bem acreditar no mito. Sabe bem ver nos doces que enriquecem a mesa os sonhos de quem não pode viver para além da clausura.

Sabe bem acreditar que são feitos dos sentimentos de quem não podia sentir, de quem não podia olhar e ser olhado, de quem não podia amar e ser amado. Sabe bem ver a doçaria conventual como o alter-ego do interdito do amor. É esta realidade bem mais bonita e, quem sabe, mais verdadeira.

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