Opinião: Erros tipográficos

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Aires Antunes Diniz

Sigmund Freud escreveu sobre a psicopatologia da vida quotidiana, tentando explicar certos erros como são os lapsus calami, algo que acontece por algum facto subconsciente que irrompe no momento da escrita, fazendo com que alguém dissesse que: “Sendo eu Editor do Jornal de Coimbra como não foi ao menos evidente para mim um erro tipográfico a que eu chamo evidentíssimo, visto que só adverti nele quando de Coimbra mo notaram?” 1.
Explica também como alguém, que nada sabe de um assunto intua soluções para ele por não estar viciado em certos “saberes”, que se revelam pouco adequados aos problemas que preocupam os “especialistas”. Talvez por isso muitos prefiram um cérebro bem arrumado a um cérebro atulhado de pensamentos enviesados acerca de coisas simples, que um simples olhar pode decifrar e resolver com eficácia. É assim importante limparmos a nossa memória, ou seja esquecer para que as ideias fluam sem vícios que as desviem dos caminhos da verdade.
Muito frustrantes são os erros tipográficos que destroem os textos que redigimos com tanto cuidado ao longo de horas para que ficassem claros e concisos, atingindo assim os objetivos didáticos que pensámos em muitas horas.
É este o objetivo dos cientistas que escrevem em jornais científicos como é o caso do Jornal de Coimbra que procurava dar notícia tanto do que se fazia em Coimbra como ainda daquilo que ia sendo produzido nas Universidades Europeias e outras.
Era um tempo em que as ideias circulavam lentamente, muitas vezes obstaculizadas por guerras que fizeram também lenta a nossa evolução científica, em particular enquanto duraram as nossas endémicas guerras civis e de quem ninguém agora fala. Tivemos alguns momentos de liberdade na produção de ideias a partir de 1850 e floriram algumas Escolas superiores, perturbadas quase só pela vontade de os estudantes se divertirem à grande. Bem pior nos aconteceu com o Estado Novo, que desbastou ou melhor dizendo podou sem dó nem piedade a árvore da ciência, que floria desde a segunda metade do Século XIX.
Após o 25 de Abril tudo podia ter mudado de forma definitiva, contudo alguns dos senhores do antigamente continuaram a obstaculizar o progresso científico e muitas vezes com argumentos como não há dinheiro. Era o que agradava a quem não sabia fazer ciência. Agora quando se atira dinheiro aos montes para salvar bancos, falta este também aos projetos científicos que não saem do papel, em que quase não há erros tipográficos, por haver esta restrição que limita irracionalmente o nosso desenvolvimento social e económico. Vão assim prejudicando o aproveitamento das potencialidades que representa a nova geração de cientistas, logo os que um governante que nada queria saber de bancos, deixando-os falir, mandou emigrar.
E a isso digamos não.

1 Jornal de Coimbra, n.º XXXV, 1814, parte 1, p. 203.

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