Opinião: Erros e desculpas

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Gonçalo Capitão

Se é certo que só não erra quem não faz o que quer que seja, que a pressa é inimiga da perfeição (mesmo na escrita), e que vi grande parte da obra de Stanley Kubrick e muitos dos filmes realizados por Francis Ford Coppola, nada disso faz com que “Apocalipse Now” (que vi em duas versões) passe a ser do primeiro, deixando de ser do segundo, como apressada e estupidamente afirmei na prosa da semana passada.

Atento estava o leitor Paulo Anjos que teve a bondade de ler a crónica e a amabilidade de, com toda a cortesia, chamar a minha atenção para o erro. Agradecimentos ao Paulo e pedido de desculpas a todos.

Como do erro podem extrair-se ensinamentos e reflexões, dei comigo a pensar que, cada vez mais, me parece que as pessoas resistem a admitir que erram – a meu ver coisa normal e inerente a condição de ser humano – e menos ainda pedem desculpa – algo que entendo que, quando praticado com sinceridade, dignifica quem pede e honra quem sabe aceitar (outro problema, aliás).

Na política e nos negócios, quantos pedidos de desculpas escutou, nos últimos tempos?! Mormente no caso dos banqueiros que tanta gente arruinaram com negociatas pouco claras, mesmo que de nada servisse em termos de recomposição das condições materiais e independentemente da assunção do lado criminal da questão, seria digno que admitissem o fracasso, pedindo desculpa.

Nas conversas de amigos e conhecidos, por seu turno, sinto que o diapasão por que afinam é mais ou menos o mesmo. O acesso a torrentes imensas de informação, mesmo quando não filtrada, mal entendida ou mesmo falsa, trouxe uma sensação errónea de omnisciência que faz com que a antiga opinião tenha passado a afirmação categórica, quando não mesmo a imposição arrogante de um ponto de vista. E embora não me sinta afectado pela epidemia, creio que o pedido de desculpas passou a causar alergia em muitas pessoas. Fico apenas com a dúvida sobre se tal carência de humildade tem a ver com uma atitude casmurramente deliberada ou com a falta de percepção do erro, mercê de um embrutecimento generalizado.

No futebol, então, nem vale a pena mencionarmos o facto. Do árbitro às condições atmosféricas, e do famoso “sistema” ao erro alheio, tudo serve para, por exemplo, treinadores e dirigentes se furtarem a assumir a sua própria aselhice ou incompetência, sendo o boçal treinador leonino a mais acaba ilustração do que fica dito.

Com gestos tão simples como os que venho abordando creio que reduziríamos a animosidade, o stress e a injustiça, e melhoraríamos em muito a convivência. Todavia, creio que os tempos não estão para a paz, da política internacional à intimidade do lar…

Cá por mim, procurarei praticar esta modalidade quase olímpica (refiro-me à tolerância) as vezes que tiver inteligência para tal.

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