Opinião – Falar sem saber

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Bruno Paixão

 

Quando a mãe a repreendeu por dizer coisas sem pensar, ela atirou-lhe que não havia coisa alguma na vida que não fosse precedida pelo pensamento. Mas na altivez contrastante com a sua tenra idade, ela apenas exprimiu que o seu pensamento havia fermentado ao ar do tempo, era em tudo semelhante aos pensamentos comuns, que coabitam com a existência impiedosa e tão cheia de preconceitos, que carpe aquele veneno redentor de uma sociedade que não consegue justificar-se senão pela culpa dos outros, pela culpa da diferença.
O açoito linguístico que segue pela corrente da comunicação quotidiana assumiu ao longo do tempo frases idiomáticas impregnadas de juízos, encrustando-se na língua sem interiorizar que muitas delas provêm de expressões racistas, machistas, egoístas e xenófobas, mesmo quando não têm por intuito essa conotação. Contudo, além de ser ofensiva para muitas pessoas, a sua propagação reforça preconceitos.
Se repararmos, a expressão que subentende uma crítica tem geralmente um oposto associado. Basta tomarmos atenção às circunstâncias em que nos referimos à célebre palmada de luva “branca” e ao que a recebe, para quem a coisa fica “preta”. A contraposição encontra-se apenas na nossa forma de ver, não constituindo uma verdade pura. É produzida pela inteleção de cada um, dependendo sempre de uma perspetiva, como o bem e o mal, o belo e o feio, o competente e o incompetente… Empregamos essa adjetivação como reforço de uma sociedade dormente que não tem conseguido ser de outra maneira. A bom ver, no léxico coletivo abundam as expressões cuja conotação, na sua raiz, tem obscuridades perversas. Se alguém está a difamar outro, dizemos que está a “denegrir”, ou seja, a tornar negro. Entre várias outras expressões em que a palavra “negro” representa algo depreciativo, pernicioso ou ilegal, dizemos amiúde que algo duvidoso foi comprado no “mercado negro”, que a pessoa de quem não gostamos passou a figurar na nossa “lista negra”, e conta-se às crianças a história da “ovelha negra”, ou a do patinho feio, que também aparece de cor diferente. Recorrentemente ouvimos alguém dirigir-se a uma pessoa de pele escura como uma “pessoa de cor”, como se as restantes fossem incolores!
Esta associação entre o “preto” e a conotação desfavorável é persistente, embora muitas vezes não o digamos empregando o seu sentido maléfico. Aliás, como a menina desta história, “falamos sem pensar” – como se tal fosse sinónimo de “falar sem saber”. No mesmo sentido, a expressão idiomática “a dar com pau” tem origem nos navios negreiros, quando os negros escravizados faziam greve de fome e eram obrigados a alimentar-se de sopa com um “pau de comer”. Também a expressão “meia tigela” tem a sua origem nos negros que eram forçados a trabalhar nas minas de ouro do Brasil e, como punição por não conseguirem encontrar o metal, recebiam apenas meia tigela de comida, transitando hoje o significado para algo de pouco valor ou pequeno.
Devemos refletir sobre o que habitualmente dizemos, sobre a forma como catalogamos os outros e que universo linguístico adotámos na nossa comunicação. Deixemos de ser cabeças “duras”. Está ao nosso alcance rejeitarmos ser uma “Maria que vai com as outras”, que diz que foi com “alto” estrondo que se deu aquele “baixo” nível, que o árbitro é “cego” por não ter visto o lance, ou que o jogador é “coxo” por ter falhado o remate e a sua equipa acabou por ter um resultado “magro”. Se invadimos o espaço de alguém, é porque somos “gordos”. E quando não conseguimos arranjar uma solução, é porque ficámos de “olhos em bico” ou de “mãos atadas” e não pudemos dar uma “mãozinha” – o que sempre é melhor do que irmos para o “maneta”.

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