Opinião: Cortaram a água a… Eça de Queirós

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Mário Frota

Não é de hoje. Mas poderá deixar de sê-lo amanhã se modelos de intervenção mais adequados forem seguidos.
Em França, por exemplo, é vedado pura e simplesmente o “corte” de água por falta de pagamento de uma qualquer fatura. E no que toca à energia elétrica, há um período “sagrado”: de 1 de novembro a 31 de março não poderá haver “cortes”. Por razões óbvias.
Em Espanha ensaia-se uma nova modalidade para a suspensão do fornecimento de energia elétrica, que de todo favorece os consumidores.
E porque não é de hoje, convém trazer à reflexão uma carta que um ilustre Homem de Letras remeteu a tal propósito ao diretor da Companhia das Águas, o Sr. Pinto Coelho, a um tempo membro do Partido Legitimista.
Eis o seu teor:
“Dois factores igualmente importantes para mim, me levam a dirigir a V. Ex.ª estas humildes regras: o primeiro é a tomada de Cuenca e as últimas vitórias das forças carlistas sobre as tropas republicanas, em Espanha; o segundo é a falta de água na minha cozinha e no meu quarto de banho.
Abundaram os carlistas e escassearam as águas, eis uma coincidência histórica que deve comover duplamente uma alma sobre a qual pesa, como na de V. Ex.ª, a responsabilidade da canalização e a do direito divino.
Se eu tiver a fortuna de exacerbar até às lágrimas, a justa comoção de V. Ex.ª, que eu interponha o meu contador, Exm.º Senhor, que eu o interponha nas relações de V. Ex.ª com o mundo externo! E que essas lágrima benditas, de industrial e de político, caiam na minha banheira.
E pago este tributo aos nossos afectos, falemos um pouco, se V. Ex.ª o permite, dos nossos contratos. Em virtude de um escrito devidamente firmado por V. Ex.ª e por mim, temos nós – um para com o outro – certo número de direitos e encargos.
Eu obriguei-me para com V. Ex.ª pagar a despesa de uma encanação, o aluguer de um contador e o preço da água que consumisse.
V. Ex.ª, pela sua parte, obrigou-se para comigo a fornecer-me a água do meu consumo. V. Ex.ª fornecia, eu pagava. Faltamos evidentemente à fé deste contrato: eu, se não pagar; V. Ex.ª, se não fornecer.
Se eu não pagar, V. Ex.ª faz isto: corta-me a canalização. Quando V. Ex.ª não fornecer, o que hei-de eu fazer com o Senhor?
É evidente que, para que o nosso contrato não seja verdadeiramente leonino, eu preciso, no caso análogo àquele em que V. Ex.ª me cortaria a minha canalização, de cortar alguma coisa a V. Ex.ª. Oh! e hei-de cortar-lha!…
Eu não peço indemnização pela perda que estou sofrendo, eu não peço contas, eu não peço explicações, eu chego a nem sequer pedir água. Não quero pôr a Companhia em dificuldades, não quero causar-lhe desgostos, nem prejuízos. Quero apenas esta pequena desafronta, bem simples e razoável, perante o direito e a justiça distributiva; quero cortar uma coisa a V. Ex.ª!
Rogo-lhe, Exm.º Senhor, a especial fineza de me dizer, imediatamente, peremptoriamente, sem evasivas, nem tergiversações, qual é a coisa que, no mais santo uso do meu pleno direito, eu possa cortar a V. Ex.ª.
Tenho a honra de ser
De V. Ex.ª,
Com muita consideração e com umas tesouras,
Eça de Queirós”

A quantos de nós não apeteceria “cortar” algo de sensível aos diretores que se passeiam estribados nas “macutas”, nas fartas “macutas” com que se douram as faturas dos serviços públicos essenciais, sem que o facto nos seja consentido…
Mas que há que retirar a “faca e o queijo” da mão às companhias, parece inevitável.
É que a água, por exemplo, é reconhecidamente um DIREITO HUMANO!

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