Opinião – A mentira tem a perna curta

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Bruno Paixão

 

Embora esteja amplamente estudado que a nossa mente não precisa de um grande esforço para acreditar na torrente de notícias que lhe são contadas, sobretudo nas que vêm preparadas com espetacularidade negativa e sensacionalismo, isso não se tem traduzido numa alteração de comportamentos dos consumidores de informação. Como num círculo ruminante de más notícias que, por consequência, vem condicionando a nossa perceção mais negra sobre a vida e o mundo, tendemos a aceitar sem questionar os embustes e informações contrafeitas, quer os que nos chegam veiculados pelos mainstream media, quer pelos novos media sociais. Este fenómeno já tem nome, chama-se “fake news”, ou seja, “notícias falsas”. Refere-se às notícias que são publicadas com a intenção concreta de enganar, fabricando histórias e plantando manchetes com o objetivo de chegar a um universo massivo de pessoas, independentemente da veracidade da história. Não há vacina que proteja os cidadãos das falsas notícias, a não ser o seu próprio mecanismo racional e a ativação saudável do seu sistema de dúvidas.
O assunto assumiu um relevo mais expressivo desde as últimas eleições norte-americanas, tendo a campanha de Donald Trump sido acusada de plantar notícias falsas nas redes sociais visando a manipulação do eleitorado. Uma das informações mais divulgadas, que teve uma projeção de grande alcance, foi a que deixou implícito o suposto apoio do Papa Francisco a Trump, embora muitas outras tivessem estrategicamente sido proliferadas, no campo das políticas públicas, da economia e sobre outros candidatos também, e até mesmo algumas que criaram um certo enraizamento do discurso de ódio. Já mais recentemente, Donald Trump confirmou que um porta-aviões, acompanhado de uma frota de ataque, estaria a navegar em direção à Pensínsula Coreana. Contudo, a frota dirigia-se no sentido oposto, estando sim a deixar a costa da Singapura após ter estado em treinos conjuntos com a marinha australiana. A mentira tem a perna curta…
Mesmo reconhecendo a existência de notícias falsas difundidas a partir do Facebook, o criador da rede social, Mark Zuckerberg, desvalorizou a influência destas notícias nos resultados eleitorais nos Estados Unidos, ainda que se tenha apressado a anunciar o seu empenho num projeto para controlar as “fake news”, propondo novas funcionalidades que ajudem a combater a divulgação de notícias falsas no Facebook, como a utilização de uma etiqueta associada às notícias contrafeitas, sistemas técnicos de deteção de desinformação, instrumentos para os utilizadores denunciarem conteúdos falsos, e até acabar com “fake news” patrocinadas.
Lembro-me também de, na Alemanha, no início deste ano, o jornal Bild ter noticiado uma violação em massa, perpetuada por refugiados árabes, num restaurante em Frankfurt. Todavia, “foi tudo uma invenção”, disse a investigação policial, após ter ouvido exaustivamente funcionários e clientes, tendo alguns confirmado que nem sequer lá estavam nessa altura. O relato das agressões foi fabricado. O editor do Bild, Julian Reichelt, foi parco nas justificações aos leitores, no seu Twitter: “Pedimos desculpas pelo nosso próprio trabalho”. Este e outros casos levaram a que a Alemanha começasse a legislar no sentido de sancionar quem propaga mensagens de ódio e notícias falsas nas redes sociais. Embora esteja implícito que passará a haver censura, o projeto-lei que tem sido trabalhado visa penalizar com multas pesadas as redes sociais que não eliminem estes conteúdos tóxicos. Mas não só. Os autores também poderão ser condenados a sanções que podem variar entre os cinco mil e os cinquenta mil euros.
Sempre houve notícias falsas e manipuladoras, mas será que a humanidade percebeu agora que caiu indelevelmente na armadilha que desde cedo andou a armar?

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