Opinião: Praxe

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Serpa Oliva

Praxe Académica é, segundo o grande dicionário de língua portuguesa da Porto Editora, “costumes e convenções usadas pelos estudantes mais velhos do ensino superior, de forma a permitir a integração dos mais novos no meio académico.”.

Temos vindo, nos últimos dias, a ouvir e ler nos media nacionais, o resultado de um estudo “A praxe como fenómeno social”, promovido pela Direção Geral do Ensino Superior, e promovido por uma equipa conjunta do ISCTE-IUL da Universidade do Porto e do CES da Universidade de Coimbra.

A Praxe, diz António Nunes, é “sinónimo de estilos ou leis que instituem as diversas hierarquias internas, os rituais de iniciação e de passagem, como usar o traje académico, os objetos e espaços interditos, e também o regima de sanções disciplinares e emancipações”.

Dizer-se que se trata de uma “tradição plástica e inventada” é seguramente desconhecer completamente a realidade dos factos, pois desde que foi instalada no Séc. XIII por D. Dinis a Universidade em Portugal, que já tinha horas de estudo e de recolha, e no Séc. XVIII, D. João V proíbe as praxes na sequência da morte de um estudante, sinal evidente de que as mesmas já existiam.
Fala-se no estudo também, que a praxe tem contornos sexistas e homofóbicos, como se isso não fosse o retrato de uma sociedade que não consegue ultrapassar facilmente alguns conceitos enraizados em si mesmo.

São aliás palavras caras, a uma esquerda cada vez mais presente em tudo o que seja a destruição pura e simples de tradições e de um passado que nos orgulha.

Sofri na pele o acabar da Queima das Fitas em sinal de luto académico, o que na altura, embora discordando da forma, aceitei como solução passageira.

Penso que em 1980 o grupo no qual me inclui, na Escola Avelar Brotero, realizou um almoço que terá sido o arranque para se iniciarem de novo as festas académicas e introduzir a praxe em Coimbra.

Discordo totalmente da posição do Governo através do Ministro do Ensino Superior, que avisa ser “preciso dar volta às praxes” e fala mesmo em “policiamento”, a que aliás, e muito bem, o Presidente da Associação Académica, Alexandre Amado, se opõe frontalmente.

A esquerda mais radical estará sempre contra estas tradições pois parece ter “medo” que as mesmas possam evitar a propaganda maoista trotskista que aponta estas matérias como reacionárias e fascizantes (perdoai-lhes Senhor que não sabem o que dizem).

As tradições académicas, o uso do traje e a praxe fazem parte de Coimbra e marcam todos aqueles que por aqui passaram nos últimos séculos, deixando-lhes quando partem, saudade para todo o sempre.

Entendo, e sempre entendi, a praxe (no meu tempo eramos rapados se fossemos apanhados depois das 19h na rua) como algo que nos ajuda a crescer como pessoas, nos facilita a relação e nos projeta para uma vivência em grupo que só pode trazer benefícios ao ser humano.

Como antigo estudante e apaixonado por Coimbra desde sempre, só me resta pedir que o bom senso impere e a praxe continue a ser vivida com alegria e com aquilo a que sempre devemos estar ligados, o verdadeiro espírito académico.

One Comment

  1. Rosário Dias says:

    Concordo plenamente, Coimbra sem praxe não era Coimbra.

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